Brás Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado
Análise da obra
Alcântara Machado
publicou
Brás, Bexiga e Barra Funda, em 1927, sendo sua segunda
publicação. A obra, da primeira fase do Modernismo, tem, ao invés de
um prólogo, um artigo de fundo e o autor confessa que os contos não
nasceram contos, mas sim notícias. Alcântara Machado busca fixar
tão somente alguns aspectos da vida quotidiana dos novos mestiços
nacionais e nacionalistas. Seu processo lingüístico é imitável,
inimitável é o espírito, o estilo, animado por uma verve,
uma graça e um humor absolutamente pessoais.
Estrutura
O livro é montado através
de pequenos quadros sobre o cotidiano pobres de São Paulo,
juntando episódios de rua, que o próprio autor intitulava de “notícias”. São
11 contos da mais bem-humorada prosa cubo-futurista, onde
vai juntando quadros urbanos que ficam entre a crônica, a notícia
e o conto leve.
É possível estabelecer uma aproximação entre Alcântara
Machado e Lima Barreto pela atitude jornalística de ambos e pela preferência
na retratação do proletariado — os filhos dos carcamanos, no primeiro, e o homem
do subúrbio, no segundo.
Os contos mantêm uma
característica fundamental do gênero que é a densidade. Todos são curtos e
apresentam os elementos mínimos indispensáveis, sem alongar-se em qualquer
descrição de cenário ou de personagem. Apresenta apenas os dados essenciais para
que a narrativa possa ancorar no espaço desejado, valorizando o mapeamento da
cidade, por isso, são freqüentes as citações de nome de ruas e de bairros.
Espaço / Tempo
O espaço é essencialmente urbano, com suas dificuldades e com a
luta das pessoas para nele se adaptarem. Podemos dividi-lo em espaço interno,
fechado, mostrando as pessoas em casa, no seu viver cotidiano, seja numa
condição não muito comum, como o velório, seja na rotina diária, como uma
refeição ou conversação informal.
O tempo é cronológico
e alguns contos apresentam unidade de tempo, como:
Lisetta, Corinthians
(2) x
. Palestra (1),
O monstro de rodas,
Armazém Progresso
de São Paulo, desenvolvendo-se a ação num só dia. Outros contos, porém,
já não apresentam essa unidade, com a ação alongando-se por mais de um dia,
numa seqüência revelada de modo elíptico, muitas vezes representado simbolicamente
pela duplicação do espaço em branco, que separa um parágrafo do outro, uma ação
da outra, num corte cinematográfico. Exemplo disso são os contos:
Gaetaninho,
Carmela,
Tiro-de-guerra nº
35,
Amor e sangue,
A
sociedade,
Nacionalidade.
Foco narrativo
Narrado em 3ª pessoa a modernidade se revela através do jogo de fragmentos, reunindo
lances da vida urbana de imigrantes e paulistas tradicionais numa cidade em franco
progresso. Entre os elementos mais destacadamente modernos do livro, está a sua
forma narrativa, feita em blocos, que funcionam como cenas.
O principal processo narrativo em
Brás, Bexiga e Barra Fundaé
o diálogo — o diálogo ponto de vista da narrativa, o diálogo revelador de caracteres
e o diálogo sugestão de ambientes, ou ainda o discurso indireto vivo, uma forma
de dialogação polifônica.
No conto
Gaetaninho, esses processos realizam-se
através da libertação da construção tradicional da frase e do aproveitamento
da vivacidade do coloquial, na visão do menino que brinca, é castigado, sonha
com a morte da tia só para andar de carro e morre atropelado.
Linguagem
Quanto à linguagem propriamente dita, ela é o
elemento igualmente central do caráter moderno do livro.
Uma das marcas de Brás, Bexiga e Barra Funda é a leveza conseguida por
meio do
discurso direto, predominante na obra. As personagens têm a oportunidade
de
falar diretamente por meio dos diálogos, exprimindo suas emoções,
tristezas e
esperanças com toda a carga expressiva e a coloquialidade que lhes é
característica. Os diálogos propiciam também maior sensação de realismo e
de
proximidade entre personagens e leitor. A história ganha em dinamismo e,
graças
à sutil ironia de Alcântara Machado, em humor. Além do mais, a leitura
dos 11 pequenos contos reunidos nesta obra faz que sintamos o processo
de abrasileiramento do italiano.
Antônio de Alcântara Machado traz na linguagem uma marca
muito própria dos modernistas da primeira geração: a recusa à linguagem
empolada, retórica, cheia de volteios. Ao contrário sua linguagem é marcada pelo
estilo telegráfico, conciso. As frases são na sua maioria formadas por orações
coordenadas e curtas, garantindo sempre um mesmo ritmo ao texto:
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho, devagarinho.
Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do Chinelo parou.
Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu
meia volta e varou pela esquerda porta adentro.
Personagens
Os personagens são “planos”, superficiais, não apresentam
transformações surpreendentes durante a narrativa.
As personagens são
apresentadas de modo sumário e
rápido, embora não seja uma caricatura, apesar do humor. Alguns são verdadeiros
tipos como Carmela e Salvatore Melli, mas outros também apresentam uma base
psicológica como Gaetaninho.
Na busca pela adaptação cultural e econômica, encontramos as
costureirinhas curiosas pelo mundo do qual não fazem parte, mas conscientes de
que devem continuar a fazer suas famílias na colônia, as crianças vítimas do
preconceito, da pobreza e da injustiça que cerca o imigrante de classe mais
baixa, os comerciantes gananciosos e suas famílias buscando uma posição social,
os jovens trabalhadores e apaixonados, os quatrocentões paulistas, nobres e
falidos, diante dos “carcamanos” endinheirados e “sem berço”.
Problemática e temas principais
Os temas mais recorrentes nos contos da
obra em análise são:
1.
A luta do Italiano pobre para conseguir seu dinheiro (
Tiro-de-Guerra
nº 35,
Nacionalidade).
2.
Ascensão social do italiano (
Notas
Biográficas do Novo Deputado,
Nacionalidade).
3.
Integração do italiano com o brasileiro (
A Sociedade).
4.
O despreparo da cidade e dos adultos com relação à criança que
não tem um espaço adequado nem uma atenção necessária, quebrando a cara e a
cabeça (
Gaetaninho,
O Monstro de Rodas).
5.
Crítica social — Embora tenha avisado no “artigo de fundo” que
não faria crítica ou denúncia social, podemos dizer que não é verdade, embora
não o faça como narrador, mas coloca na boca das personagens várias pílulas
críticas como em
O Monstro de Rodas, quando alguém comenta:
“Não
conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego. Filho de rico manda
nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo. É ou não é, seu Zamponi?”
6.
Obra datada — Sua obra fica prejudicada por determinadas
técnicas que tornam a obra muito datada, dificultando
para os leitores jovens de hoje a sua total apreensão.
Algumas dessas técnicas são:
— emprego de gírias que já foram esquecidas (estava achando um
suco = achava muito bom);
— nome de produtos que deixaram de ser fabricados (cláxon);
— o mapearmento da
cidade de São Paulo (Rua do Gazômetro, Rua do Oriente);
7.
Nomes de firmas ou de lojas que deixaram de existir (vestido do Camilo, Ao Chic
Parisiense);
8.
Referências a fatos ou acontecimentos que desapareceram da memória de quase todo
mundo.
Enredo dos contos
1. Gaetaninho -
A narrativa é feita em terceira pessoa, com narrador onisciente e tem como
espaço a Rua do Oriente. As personagens que a compõem são os italianinhos ou "intalianinhos";
a protagonista é Gaetaninho, maluco por futebol a ponto de ficar o dia inteiro
jogando bola de meia na rua, com os amigos. Ficava tão concentrado que não vê o
Ford, a carroça. Mas
"Grito materno sim:
até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu
o chinelo.
- Súbito!
Foi-se chegando
devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e
do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar
a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!"
Ali na rua do Oriente, todo mundo era pobre e todo mundo
andava de bonde. De automóvel ou carro, só mesmo quando morria alguém ou alguém
casava. Naquela tarde, por exemplo, Beppino tinha atravessado a cidade de carro,
acompanhando tia Peronetta que se mudava para o Araçá (tia Peronetta havia
morrido e esta é uma forma popular de dizer que ela fora enterrada no Araçá).
Gaetaninho driblou a mãe, entrou.
Enfiou a cabeça debaixo do travesseiro e sonhou que tia
Filomena tinha morrido. Lá ia Gaetaninho na boléia, sonho antigo de menino,
vestido de roupa marinheira e gorro onde se lia "Encouraçdo São Paulo"... não,
melhor com a palhetinha nova que ganhara de presente do irmão.
Quando contou o sonho, e no sonho vira o Savério, noivo de
tia Filomena, chorando, a tia teve uma taque de nervos, Gaetaninho ,
arrependido, colocou no lugar da tia o seu Rubino, que era acendedor da
Companhia de Gás e que um dia tinha lhe dado um cocre.
Os irmãos, depois de contado o sonho com a tia Filomena,
apostaram no elefante, mas deu a vaca no jogo do bicho...
Gaetaninho vai brincar outra vez com os amigos, jogando bola.
Distraiu-se:
- Traga a bola!
Gaetaninho saiu
correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai
do Gaetaninho.
A gurizada assustada
espalhou a notícia na noite.
- Sabe o Gaetaninho?
- Que é que tem?
- Amassou o bonde!
A vizinhança limpou
com benzina suas roupas domingueiras.
Comentário:
Neste conto pode-se notar no comportamento dos meninos uma demonstração de
impiedade natural que tanto pode ser fruto da própria idade, quanto da vida
urbana moderna. Percorre o texto um humor negro, resultado de uma ironia amarga.
2. Carmela - Carmela sai da oficina às 18h30, em meio a muitas outras
costeirinhas
"que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras."
Os automóveis, com sua buzinas gritadoras, lotam a rua Barão de Itapetininga.
Bianca, feia e estrábica, caminha ao lado da amiga Carmela,
em meio aos automóveis e os homens namoradores. É dela uma espécie de sentinela.
Um rapaz que usa óculos para o Buick de propósito na esquina.
O Ângelo espera na Rua Barão. Carmela está interessada nele:
"Bianca retarda
o passo.
Carmela continua no
mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não
houvesse nada. Só que sorri.
- Já acabou o romance?
- A madama não deixa
a gente ler na oficina."
Vão caminhando juntos, falando do baile de amanhã, o Buick
passa e repassa, Bianca é perguntada pelo motorista sobre onde mora a Carmela.
Mesmo que esteja acompanhada de outro, o rapaz do Buick não dá sossego...
Bianca entrega tudo: como se chama a amiga, onde mora, rua,
número, bairro. E o moço ainda deixa com ela um recado: "- Diga a ela que
eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua... não... atrás da Igreja
de santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também
pode ficar em casa."
O barbeirinho era o Ângelo, entregador da Casa Clark...
No outro dia, vai encontrar-se com ele a Carmela; leva junto
a Bianca e ambas concordam em dar uma volta no Buick do rapaz.
No domingo seguinte, quando vai à casa da amiga, Bianca a
encontra raspando a sobrancelha e anunciando que não vai dar voltas de carro com
os dois. Querem estar sozinhos. Bianca chama Carmela de vaca...
Depois de deixar a amiga com o caixa d'óculos, despeitada,
encontra uma amiga do bairro e conta tudo sobre Carmela e o rapaz rico.
Espantada, a amiga pergunta pelo Ângelo. E recebe a resposta inusitada:
"- O Ângelo/ O outro é outra coisa. É pra casar."
Comentário:
Chamamos a atenção para uma tradição na “paquera"
daqueles tempos: a moça feia seguia sempre na carona da bonita,
mas ficava para trás (como no começo do conto) quando a
outra ia falar com o rapaz, e era deixada de lado, logo
que o namoro estava garantido. Nota-se também a coloquialidade,
característica do Modernismo, permitindo registrar a linguagem
viva das ruas.
Alcântara Machado revela, de maneira concisa, sugestiva, a psicologia da mulher
nesses novos tempos. O amor único, romântico, não é valor fundamental, por isso,
Carmela mantém um namorado para casar e outro para divertir-se, mas sem compromisso.
Tiro de guerra
nº 35 - Foi no grupo
escolar da Barra Funda que o Aristodemo Guggiani aprendeu a roubar no jogo de
gude e a amar o Brasil. Cantava o Hino Nacional com voz bem entoada e ,
berrando, puxava o coro. Quando a campanhai tocava, o pessoal da classe
"desembestava pela Rua Albuquerque Lins vaiando o seu Serafim."
Quando saiu do Grupo escolar, já fumando cigarros Bentevi,
foi trabalhar na oficina de um cunhado e entrou para o Juvenil Flor de Prata
F.C. como reserva do time, mas foi expulso por falta de pagamento das
mensalidades. Daí para a frente, uma série de amores , sovas e acontecimentos
corriqueiros: quase morreu afogado no rio Tietê. No dia em que Tina, a namorado
de um amigo, casou à força, na polícia, com um chofer de praça, Aristodemo fez
20 anos.
Brigou com o cunhado, arrumou emprego como cobrador na linha
Praça do Patriarca-Lapa, na Companhia Autoviação Gabrielle D'Annunzio. Para
isso, usava farda amarela e polainas vermelhas.
E arranjou uma pequena. Ela vinha à janela para vê-lo passar
e o motorista, o Evaristo, por camaradagem tocava a buzina quando passava pela
casa da pequena.
Mas teve que se afastar
dela quando foi convocado para o serviço militar do Tiro-de-guerra. O sargento
cearense, Aristóteles Camarão de Medeiros, dava as ordens e "quando falava
em honra da farda, deveres do soldado e grandeza da Pátria arrebatava qualquer
um.
Aristodemo só de
ouvi-lo ficou brasileiro jacobino. Aristóteles escolheu-o para seu ajudante de-ordens.
Uma espécie de.
- José conhece o hino
nacional, criatura?
- Puxa, se conheço,
seu sargento!
- Então você não esquece,
não? Traz amanhã umas cópias dele para o pessoal ensaiar para o Sete de Setembro?
Abom."
Aristodemo pediu folga no serviço, ensaio com aquele bando de
soldados semi-analfabetos, que erravam o tempo todo. De repente, com a presença
do sargento e tudo, houve um tumulto grande: era Aristodemo que brigava a socos
com o alemãozinho que tinha debochado do hino. Confessou depois ao sargento que
batera na cara do alemãozinho e que xingara demais a mãe dele.
Resultado: o alemãozinho foi desligado das fileiras do
Exército, Aristodemo suspenso por um dia. Além do que, por conselho do sargento,
ainda mudou de agência de ônibus: foi trabalhar na Rui Barbosa...
Comentário:
É comum nas narrativas de Alcântara Machado a incorporação de gêneros não
literários como o cartão de propaganda, o bilhete ou carta. Nesse conto, ele
insere a "ordem do dia", absolutamente integrada como sempre faz também com os
outros casos. A ficção de Alcântara Machado, com tais inserções, não só
incorpora técnicas das vanguardas européias, como objetiva fazer o registro do
viver urbano paulista no início do século XX.
Amor e sangue - A alma de Nicolino estava negra, embora o céu estivesse
azul, todo azul. A impressão que teve foi de que a rua é que andava, não ele.
Veja como Alcântara Machado produz momentos extremamente
poéticos na prosa:
"As bananas na porta da Quitanda Trípoli italiana eram de
ouro por causa do sol." Por que será que a alma dele andava negra
assim?
Narrativa em terceira pessoa,
Amor e sangue conta a
história de Nicolino Fior D'Amore , insatisfeito , infeliz. Adora futebol, é bom
jogador, mas a Grazia tira dele o juízo:
"A desgraçada já havia passado."
Nicolino trabalha no "Ao barbeiro Submarino", ouve as
conversas naquele dia, mas nada diz. Comentam muito sobre o crime do dia
anterior: um rapaz havia matado uma moça por ciúmes, privação dos sentidos...
Nicolino nem escutava mais.
O ciúme corroia-o por dentro. Quando a fábrica apitou, foi ao
encontro dela, jurando que se mataria se ela não falasse mais com ele:
"- Não faça mais assim pra mim, Grazia. Deixa que eu vá
com você. Estou ficando louco, Grazia. Escuta. Olha, Grazia! Grazia! Se você
não falar mais comigo eu me mato mesmo. Escuta. Fala alguma coisa, por favor."
Mas ela não quis falar mesmo com ele.
Na saída da fábrica, Nicolino resolveu se vingar, apunhalou
Grazia. E, quando foi preso, declarou:
"Eu matei porque
estava louco, seu delegado!
Todos os jornais registraram
essa frase que foi dita chorando.
Eu estava louco,
Seu delegado!
Matei por isso, BIS
Sou um esgraçado!
O estribilho do Assassino por Amor
(Canção da atualidade para ser cantada com a música do "Fubá", letra
de Spartaco Novais Panini) causou furor na zona."
Comentário: Pela forma como a narrativa está estruturada, embora o
narrador não diga, deixando em aberto, é fácil o leitor perceber que o ato da
personagem foi sugerido pela notícia de jornal comentada por Temístocles.
A Sociedade - A esposa do conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda não
tolera sequer imaginar que a filha Teresa Rita venha a se casar com um “filho
carcamano”
Mesmo assim, o rapaz, Adriano Melli, ronda a sua janela,
passa buzinando no seu Lancia e cumprimentando com seu chapéu Borsalino. A mãe,
atenta, manda-a entrar.
Os pais não puderam ir ao baile graças a um furúnculo no
pescoço do conselheiro e com isso Teresa e Adriano conseguem se ver. Neste
encontro, o jovem anuncia seu pai quer fazer negócio com o pai da moça.
A mãe, precavida, já deixa avisado: “Olhe aqui, Bonifácio: se
esse carcamano vem pedir a mão de Teresa para o filho você aponde o olho da rua
para ele, compreendeu?”
Mas o negócio era outro. O senhor Salvatore Melli vinha
propor sociedade em um negócio no qual o conselheiro entrava com uns terrenos e
ele com o capital. No meio da conversa, Salvatore avisa que seu filho será o
gerente da sociedade.
Consultando a mulher, o conselheiro obteve a seguinte
resposta: “Faça como quiser, Bonifácio...”. E ele resolveu aceitar.
Seis meses depois vem a outra proposta: o casamento dos
filhos.
No chá de noivado, o senhor Melli recordou na frente de todos
o tempo que vendia cebolas, batatas, Olio di Lucca e bacalhau para a mãe de
Teresa quase sempre fiado e até sem caderneta.
Comentário: É importantíssimo observar, nesse conto, como o autor
fragmenta o discurso em pedaços ao modo de azulejos que formam um mosaico. Veja
na descrição do baile, a canção do negro da orquestra é recortada e, entre seus
versos, são inseridos os fragmentos que descrevem cenas do salão, enquanto outros
fragmentos mostram a disposição da mãe contra o namoro da filha com o filho do
italiano. É louvável o modo inteligente como, no final, se justifica o título
em duas possíveis interpretações: denotativa, com o paulista unindo-se ao italiano
para o negócio do terreno; conotativa, com o casamento dos filhos, associando-se
assim o paulista de tradição e o imigrante.
Lisetta - Assim que entrou no bonde com sua mãe, Lisetta viu logo o urso de
pelúcia no colo da menina de pulseira de ouro e meias de seda. Quando a menina
rica percebeu o encanto de Lisetta passou a exibir-se com o urso, deixando
Lisetta ainda mais deslumbrada. Dora Mariana, a mãe, pedia à menina que ficasse
quieta, mas Lisetta agora queria pegar o urso um pouquinho. A mãe da menina rica
olhou, com ar de superioridade, fez um carinho no bichinho e se olhou no
espelho. E o escândalo continuava.
Quando a família rica desceu, a mãe, já em frente ao seu
palacete estilo empreiteiro português, voltou-se e agitou o bichinho no ar,
provocando a menina.
Já em casa, Lisetta levou uma surra histórica. A mãe só parou
quando Hugo, irmão da menina, chegou da oficina e a defendeu.
Mais tarde, Hugo deu à Lisetta um urso “pequerruncho e de
lata”. Pasqualino, outro irmão, logo quis pegá-lo. Mas Lisetta correu para o
quarto e “fechou-se por dentro”.
Comentário:
Cinetograficamente, logo na primeira frase do conto, o narrador revela a
condição social por um close em partes que revelam o todo: a pulseira de ouro e
as meias de seda são índices da condição econômica superior da menina do urso.
Nome de lojas e de produtos fazem parte da linguagem de Alcântara Machado, mas,
ao mesmo tempo, tornam a obra datada demais e de leitura difícil aos leitores de
hoje. Apesar do autor ter avisado no "artigo de fundo" que não aprofundaria
nada, que não tomaria posição política, não podemos deixar de perceber que,
tanto aqui como em outros contos, ele se contradiz ao focalizar com destaque a
criança marginalizada pelo adulto, pela cidade e pela condição econômica, sendo
levada ao sofrimento e à desilusão muito cedo.
Corinthians (2) x Palestra (1)
- A partida estava vibrante no estádio do Parque Antártica. Miquelina, ao
lado de sua amiga Iolanda não consegue se conformar quando o Corinthians faz o
gol.
Sua esperança para garantir o Palestra agora era o Rocco.
Gostava dele. Antes namorava o Biagio, jogador do Corinthians. Quando
terminou o namoro, ela parou de freqüentar os bailes dominicais da Sociedade
Beneficente e Recreativa do Bexiga, onde todo mundo sabia da história deles.
“E passou a torcer para o Palestra. E começou a namorar o Rocco.”
Matias, jogado do Palestra, empata o jogo. Miquelina delira.
No intervalo, Miquelina manda pelo irmão um recado ao Rocco,
dizendo para que ele “quebrasse” o Biagio. Quando Biagio estava parar marcar um
gol, Rocco o derruba dentro da área: o juiz marca pênalti. O próprio Biagio bate
e faz mais um gol para o Corinthians. O jogo acaba.
Na saída, Miquelina “murchou dentro de sua tristeza”, “nem
sentia os empurrões”, “não sentia nada”, “não vivia”.
No bonde, de volta para casa, corintianos faziam a festa. Um
torcedor do Palestra reclama que a culpa foi “daquela besta do Rocco”.
Mais tarde Iolanda se surpreende quando Miquelina resolve
acompanhá-la ao baile da Sociedade.
Comentário:
O narrador procura destacar o objeto da narração e não a si mesmo (como costumam
fazer os narradores criados por Machado de Assis), vai descrevendo e narrando
uma partida de futebol a que assiste Miquelina. Ela torce pelo Palestra. Mas,
antes, namorara o Bagio, do Corinthians. Rompeu com ele, porém, e passou a
namorar o Rocco e a torcer para o Palestra.
Nota biográfica do novo deputado - O coronel J. Peixoto de Faria fica
desnorteado quando recebe a carta do administrador da fazenda Santa Inácia
dizendo, entre outras coisas, que o seu compadre, João Intaliano, morreu. O
órfão e afilhado do coronel, Gennarinho, ficou na casa do administrador, que
agora pede uma orientação. O coronel Juca e Dona Nequinha, sua esposa, deixam
para responder a carta no dia seguinte.
Gennarinho, nove anos, é trazido pelo filho mais velho do
administrador. Vem “com o nariz escorrendo. Todo chibante.” Logo Gennarinho já é
tratado com um filho pelo casal.
Um dia, o coronel decide traduzir o nome do menino.
“Gennarinho não é nome de gente”. E passou a chamá-lo de Januário.
Discutindo sobre o futuro do garoto, os pais adotivos
resolvem colocá-lo num colégio de padres. No primeiro dia de aula, o coronel,
todo comovido, acompanha Januário e o apresenta ao reitor. D. Estanislau
pergunta seu nome. O menino responde dizendo apenas o primeiro nome. O reitor
insiste: Januário de quê? O menino responde, com os olhos fixos no coronel:
Januário Peixoto de Faria.
Seguindo para São Paulo, o coronel já pensa em fazer
testamento.
Comentário:
Mais uma vez temos o italiano sendo assimilado pela família paulista
tradicional. O menino, que parecia destinado a uma vida pobre e triste, ao ter a
desgraça de ficar órfão, como que decidiu seu futuro ao captar a simpatia de seu
padrinho, que o adota e destina seu amor e seus bens. O menino do relato é o
deputado do título. É como se o conto fosse o esboço para a biografia de um
homem recentemente eleito para deputado.
O monstro de rodas - As pessoas da sala discutiam as providências a serem
tomadas para o enterro de uma criança. Dona Nunzia, a mãe, chorava desesperada
até que foi levada para dentro pelo marido e pelo irmão. Uma negra rezava.
Na sala de jantar, alguns homens discutiam sobre qual seria a
repercussão no Fanfulla, jornal da comunidade italiana. Pepino acha que a
notícia irá atacar o “almofadinha”. Tibúrcio, porém, sabe que “filho de rico
manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo.”
Durante o cortejo, outros interesses aparecem: o bate-papo
dos rapazes (
“A gente vai contando os trouxas que tiram o chapéu até a gente
chegar no Araçá. Mais de cinqüenta você ganha. Menos, eu.”), a vaidade das
mulheres (
“Deixa eu carregar agora, Josefina?” “Puxa, que fiteira! Só
porque a gente está chegando na Avenida Angélica. Que mania de se mostrar que
você tem!”), politicagens (
“Tibúrcio já havia arranjado três votos para
as próximas eleições municipais”)...
Na volta para casa, Aída encontra dona Nunzia olhando a foto
da menina morta publicada na Gazeta. O pai tinha ido conversar com o advogado.
Comentário:
Perfeita crônica do comportamento popular, registro vivo e dinâmico de um
enterro, que simultaneamente é um retrato crítico dos adultos indiferentes à
desgraça da criança.
Armazém Progresso de São Paulo - O armazém do Natale era famoso por um
anúncio em que dizia ter artigos de todas as qualidades. “Dá-se um conto de réis
a quem provar o contrário”. Zezinho, o filho do doutor da esquina, sempre bulia
com seu Natale, pedindo, por exemplo, “pneumáticos balão”. Quando o malandro
cobrava seu um conto de réis, Natale respondia: “Você não vê, Zezinho, que isso
é só para tapear trouxas?”. E anotava na conta do pai os cigarros que o rapaz
pedia com nome de outros.
Em frente ao armazém, a confeitaria Paiva Couceiro não
agüentaria por muito mais tempo. E seu Natale, que tinha prazer em observar
aquele espetáculo de decadência dia após dia, já havia calculado quanto
ofereceria ao português no leilão da falência. Por hora, ele fazia a sua parte:
pressionava o homem com uma dívida com ele, uma letra que estava para vencer.
Dona Bianca o chama. Ouvira numa conversa do José Espiridão,
o mulato da Comissão do Abastecimento, que a crise viria e os preços, inclusive
o da cebola, produto encalhado na confeitaria, disparariam. Se não desse um
jeito no português agora, nunca mais. Depois de confirmar o assunto com o mulato
e pedir sua colaboração ficando quieto, seu Natale consegue “arranjar” o
negócio. À noite, dona Bianca vai dormir se vendo no palacete mais caro da
Avenida Paulista.
Nacionalidade -
O barbeiro Tranquillo Zampinetti lia entusiasmado as notícias de guerra no
jornal italiano Fanfulla. Chegava até a brandir a navalha como uma espada
assustando os fregueses. Mas tinha um desgosto “patriótico e doméstico”: os
filhos Lorenzo e Bruno não queriam falar italiano.
Depois do jantar, Tranquillo colocava a cadeira na calçada e
ficava com a mulher e alguns amigos como o quitandeiro Carlino Pantaleoni, que
só falava da Itália. Tranquillo ficava quieto mais depois sonhava em voltar para
a pátria.
Um dia, Ferrúcio, candidato do governo a terceiro juiz de
paz, veio pedir votos. Tranquillo, que nem votava, acabou sendo convencido pelo
compatriota e gostou tanto que com o tempo andava até pedindo votos.
A guerra européia encontrou Tranquillo bem estabelecido,
influente e envolvido na política; Lorenzo, noivo e também participando da
política da região; e Bruno estudando, além de ser vice-presidente da Associação
Atlética Ping-Pong. Tranquillo ainda se agitou com a guerra. Mas, com o descaso
da família, logo foi se desinteressando.
O progresso de Tranquillo continuava e agora ele comentava
mais as questões políticas do Brasil que as da Itália.
Quando Bruno se forma advogado pela faculdade de Direito de
São Paulo, o pai chora, a mãe é trazida pelo neto, filho de Lorenzo, para vê-lo
e todos se abraçam emocionados. E o primeiro serviço de Bruno foi requerer a
naturalização de Tranquillo Zampinetti.