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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O que é Literatura?

Literatura

Resumo 1

O que é literatura? 

A literatura é uma arte que se utiliza da palavra (tanto escrita quanto oral) como meio de expressão dos sentimentos, crenças e valores dos seres humanos.
Assim sendo, a literatura é uma forma artística de representar a realidade que nos cerca. Por ser uma forma artística de representação, ela não retrata o real tal como ele é (coisa que acontece, por exemplo, nos textos jornalísticos, científicos etc.),  mas sim retrata uma realidade criada pela visão do artista.


       Realidade artística                     #                       Realidade factual
(Obras literárias, pinturas etc.)                (Textos científicos, textos jornalísticos etc.)


O autor de uma obra literária é aquele que realiza um trabalho com a linguagem visando produzir determinados efeitos sobre o leitor utilizando-se, para isso, da forma e do conteúdo das palavras.

Toda palavra possui uma forma e um conteúdo. Por exemplo, a palavra “amor” remete a um conteúdo (que é aquilo que a nossa mente entende quando alguém nos fala “amor”, isto é, o significado da palavra “amor”) e a uma forma (a palavra “amor” tem uma forma composta por consoantes, sílabas, sons etc. que variam de idioma para idioma). Assim, podemos dizer que um grande literato é aquele que conhece e tem um domínio sobre a forma e o conteúdo das palavras de sua língua.


Classificações dentro da Literatura

Dada as duas dimensões (de forma e de conteúdo) que uma palavra encerra dentro de si, os produtos da arte literária serão também classificados de 2 modos:
1)      De acordo a sua forma (formas literárias): as obras literárias são escritas ou na forma de verso ou na forma de prosa.
2)      De acordo ao seu conteúdo (gêneros literários): as obras literárias podem conter uma narração sobre fatos que se ligam no tempo (que pode ser o tempo cronológico, externo, ou tempo interno, psicológico) e no espaço por meio da movimentação de personagens. Neste caso, temos o gênero narrativo, onde se tem a necessidade de um narrador dos fatos, que pode ser tanto um personagem-narrador (que conta a história e participa dela em primeira pessoa) ou um narrador-onisciente (que apenas narra os fatos em terceira pessoa, sem qualquer participação naquilo que é contado). Além do mais, as obras literárias podem conter a expressão do mundo subjetivo do EU do “personagem”, da sua individualidade, isto é, do “Eu lírico” da obra (que, por sua vez, não pode ser confundido com o Eu real do escritor.). Neste caso, temos o gênero lírico. Por último, as obras literárias podem ser escritas com o objetivo de serem encenadas (teatralizadas). Neste caso, temos o gênero dramático.

Para aplicar tais classificações, analisemos a obra “O auto da barca do inferno”, do mestre Gil Vicente. Trata-se de uma obra que tem, por forma, o verso e, por conteúdo, o dramático (pois foi criada com o objetivo de ser encenada). Nota-se, portanto, que cada um dos gêneros literários pode ser escrito tanto sob a forma de verso quanto sob a forma de prosa (ou mesmo uma mescla de ambos, como é o caso da prosa poética).

Subdivisões dos gêneros literários
Os 3 gêneros literários (narrativo, lírico e dramático) são, por sua vez, também subdivididos. Obtém-se, assim, em relação a cada um dos gêneros:

Narrativo

Narrativas em verso: são chamadas de epopeias ou poemas épicos. São longas narrativas em verso sobre assuntos grandiosos contendo personagens do tipo heroico.
Ex: epopeia de Gilgamesh, Ilíada, Odisseia, Eneida, Os lusíadas etc.

Narrativas em prosa: são os romances, novelas, contos e fábulas. No romance, temos uma narrativa longa, com vários personagens e várias situações dramáticas que se entrecruzam. Em uma novela, temos uma narrativa mais concisa e situações dramáticas que giram em torno de apenas 1 personagem central. Já em um conto, tem-se uma narrativa extremamente breve, de teor psicológico mais denso, personagens complexos e apenas uma situação dramática. Por fim, temos a fábula, composta por uma narrativa curta de cunho moral, visto que a história contada visa transmitir uma mensagem de fundo moral. Para isso, utiliza-se de personagens animais que encarnam os diversos tipos humanos (por exemplo, o avarento, o ambicioso, o parcimonioso etc.).

Lírico

As obras do gênero lírico – que são aquelas em que não se conta uma história (ao contrário do gênero narrativo) e sim há a expressão de uma a subjetividade (os sentimentos íntimos, visão de mundo etc.) -  podem de se dar tanto na forma de versos quanto na de prosa. Um exemplo do primeiro é o “Soneto de fidelidade”, de Vinícius de Moraes (“De tudo ao meu amor serei atento/Antes e com tal zelo e sempre e tanto/Que mesmo em face do maior encanto/Dele se encante mais meu pensamento”).

Dramático

Caracterizando-se pelo fato de apresentar a encenação de um texto, o gênero dramático possui várias formas de expressão, sendo os mais importantes:
- A tragédia (origem na Grécia antiga), onde se encenam ações que visam despertar o terror e a piedade, tendo por fim alertar para os perigos das paixões e dos vícios humanos.
- A comédia (origem na Grécia antiga), que objetiva criticar a sociedade e o comportamento humano por meio do riso.
- A farsa (origem no século XIV), peça teatral curta que, ao explorar situações ridículas do cotidiano e apelar para personagens caricaturescos e exagerados, pretende provocar o riso no espectador.
- O auto (origem também na Idade Média), peça breve geralmente feita em verso, contendo conteúdo religioso ou profano. Caracteriza-se por possuir um conteúdo altamente simbólico, onde os atores representam não seres humanos específicos, mas sim entidades abstratas de caráter religioso ou moral (a virtude, o pecado, a beatitude etc).
Obs.: também se pode usar o termo “peça dramática” como sendo qualquer peça teatral séria em oposição a uma comédia propriamente dita. 


Os estilos artísticos

Embora cada um dos autores tenha sua própria originalidade e singularidade, eles carregam entre si similitudes que permitem classificá-los naquilo que se denomina “estilo de época”, isto é, o estilo literário que predomina num determinado período histórico. Além do mais, a publicação de uma obra extremamente inovadora ou mesmo um fato histórico que repercute em toda a cultura de uma época podem servir de ponto de partida para a consolidação de novos estilos artísticos diversos daquele que predomina em determina sociedade. Com relação à literatura brasileira, seu estudo exige também o estudo da literatura portuguesa, dado os laços de dependência histórico- culturais entre os dois povos.


Quadro cronológico dos estilos artísticos

        PORTUGAL                                                     BRASIL                       
Trovadorismo (1189-1434)
Humanismo (1434-1527)                          Literatura informativa (1500-1600)
Classicismo (1527-1580)
Barroco (1580-1756)                                 Barroco (1600-1768)
Arcadismo (1756-1825)                            Arcadismo (1768-1836)
Romantismo (1825-1865)                         Romantismo (1836-1881)
Realismo (1865-1890)                               Realismo/Naturalismo (1881-1893)
Simbolismo (1890-1915)                           Simbolismo (1893-1922)
Modernismo (1915 em diante)                   Modernismo (1922-1945)
                                                                    Pós-modernismo (1945 em diante)

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Lista de Livros para o Vestibular de 2014




Lista de livros para o Vestibular de 2014


Cefet-MG
Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais
Uma vida em segredo - Autran Dourado

Facasper (SP)
Faculdade Cásper Líbero
Til – José de Alencar
Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
O cortiço – Aluísio Azevedo
Sentimento do mundo – Carlos Drummond de Andrade
O fio das missangas – Mia Couto
Leite derramado – Chico Buarque

FACTO
Faculdade Católica do Tocantins
Til – José de Alencar
O Rio Tocantins engoliu meu avô – Francisco Perna

FGV-EAESP
Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas
Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida
Senhora – José de Alencar
O cortiço – Aluísio Azevedo
Quincas Borba – Machado de Assis
O Ateneu – Raul Pompeia
Macunaíma – Mário de Andrade
Sâo Bernardo – Graciliano Ramos
A rosa do povo – Carlos Drummond de Andrade
Morte e vida severina – João Cabral de Melo Neto
A hora da estrela – Clarice Lispector

Fuvest e Unicamp
Universidade de São Paulo (USP)
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Viagens na minha terra – Almeida Garrett
Til – José de Alencar
Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antônio de Almeida
Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
O cortiço – Aluísio Azevedo
A cidade e as serras – Eça de Queirós
Vidas secas – Graciliano Ramos
Capitães da areia – Jorge Amado
Sentimento do mundo – Carlos Drummond de Andrade

IF Goiano
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano
Lira dos Vinte’Anos - Álvares de Azevedo
O cortiço - Aluísio Azevedo
O leopardo é um animal delicado - Marina Colasanti
Pomba enamorada ou Uma história de amor e outros contos escolhidos - Lygia Fagundes Telles

PUC-Goiás
Pontifícia Universidade Católica de Goiás
O fio das missangas – Mia Couto
Maya – Ursulino Leão
Breve história do espírito – Sérgio Sant'Anna
Inocência – Visconde de Taunay
Os pecados da tribo – José J. Veiga
Melhores Poemas de Castro Alves – Antônio de Castro Alves
O homem e sua hora – Mário Faustino
Auto da Compadecida – Ariano Suassuna

PUC-SP
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
Sentimento do Mundo – Carlos Drummond Andrade
Til – José de Alencar
Viagens na Minha Terra – Almeida Garrett
Vidas Secas – Graciliano Ramos

UDESC
Universidade do Estado de Santa Catarina
A Hora da Estrela - Clarice Lispector
Últimos Sonetos - Cruz e Sousa
Clarissa - Érico Veríssimo
O detetive de Florianópolis - Jair Francisco Hamms
Helena - Machado de Assis

UEG
Universidade Estadual de Goiás
Triste Fim de Policarpo Quaresma – Lima Barreto
Ai de Ti, Copacabana – Rubem Braga
Estórias da casa velha da ponte – Vinícius de Moraes
Melhores Contos – JJ. Veiga
Indicente em Antares – Érico Veríssimo

UEL
Universidade Estadual de Londrina
Cidade de Deus – Paulo Lins (a partir da 2ª. edição)
As Melhores Crônicas de Rachel de Queiroz – Rachel de Queiroz
Espumas flutuantes – Castro Alves
São Bernardo – Graciliano Ramos
Papéis avulsos – Machado de Assis
Sagarana – Guimarães Rosa
O Primo Basílio – Eça de Queirós
O Planalto e a Estepe – Pepetela
Farsa de Inês Pereira – Gil Vicente
Bagagem – Adélia Prado

UEM (Vestibular de Verão 2013)
Universidade Estadual de Maringá
A falecida – Nelson Rodrigues
Contos novos – Mário de Andrade
Dois irmãos – Milton Hatoum
Dom Casmurro – Machado de Assis
Eu e outras poesias – Augusto dos Anjos
Iracema – José de Alencar
Laços de família – Clarice Linspector
Marília de Dirceu – Tomás Antônio Gonzaga
Poesias completas – Cruz e Sousa
Semões do Padre Vieira – Padre Antônio Vieira

UEMA
Universidade Estadual do Maranhão
Romance LIII ou Das palavras aéreas (Romanceiro da Inconfidência) – Cecília Meireles
Saraminda – José Sarney
Da arte de falar bem – José Chagas

UEMG
Universidade do Estado de Minas Gerais
A mão e a luva – Machado de Assis
Sísifo desce a montanha – Affonso Romano de Sant’Anna

UENP
Universidade Estadual do Norte do Paraná
Helena – Machado de Assis
Laços de família – Clarice Lispector
Memórias de um sargento de Milícias – Manuel Antonio de Almeida
A morte e a morte de Quincas Berro Dágua – Jorge Amado
São Bernardo – Graciliano Ramos

UEPB
Universidade Estadual da Paraíba
Clara dos Anjos – Lima Barreto
Ciço de Luiza – Efigênio Moura
Mastigando Humanos - um romance psicodélico – Santiago Nazarian
É proibido comer a grama – Wander Piroli

UEPG
Universidade Estadual de Ponta Grossa
O Guarani – José de Alencar
Dom Casmurro – Machado de Assis
Muitas Vozes – Ferreira Gullar
Dois Irmãos – Milton Hatoum
Felicidade Clandestina – Clarice Lispector

UERN
Universidade do Estado do Rio Grande do Norte
A rosa do povo – Carlos Drummond de Andrade
Laços de família – Clarice Lispector
Fogo morto – José Lins do Rego
Esaú e Jacó – Machado de Assis
Horoto – Auta de Souza

UESB
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
Clepsidra - Camilo Pessanha
Sagarana - Guimarães Rosa
Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto

UFES
Universidade Federal do Espírito Santo
Monó logo de uma sombra – Augusto dos Anjos
Dois perdidos numa noite suja – Plínio Marcos
Terra sonâmbula – Mia Couto
Singularidades de uma rapariga loira, Adão e Eva no paraíso, Civilização e O defunto – contos de Eça de Queiroz
O recado do morro – Guimarães Rosa
As meninas – Lygia Fagundes Telles
O matador – Patrícia Melo
Zero – Douglas Salomão
Ai de ti, Copacabana – Rubem Braga

UFG
Universidade Federal de Goiás
Poesia, antologia do 50º aniversário de poesia – José Godoy Garcia
Lira dos Vinte’Anos – Álvares de Azevedo
Eu vos abraço, milhões – Moacyr Scliar
O cortiço – Aluísio de Azevedo
Liberdade, liberdade - Flávio Rangel e Millôr Fernandes
Melhores contos - J.J. Veiga

UFGD
Universidade Federal da Grande Dourados
O beijo no asfalto - Nelson Rodrigues
Laços de família - Clarice Lispector
Estórias abensonhadas - Mia Couto
Menino de engenho - José Lins do Rego
Ficções de interlúdio - Fernando Pessoa.

Filme
Terra vermelha - Marcos Bechis.

UFLA
Universidade Federal de Lavras

1ª etapa PAS (2014/2016)
A carta de Pero Vaz de Caminha
Marília de Dirceu – Tomás Antônio Gonzaga
Antologia poética – Gregório de Matos

2ª etapa PAS (2013/2015)
Esaú de Jacó – Machado de Assis
O Cortiço – Aluísio Azevedo
Antologia poética – Olavo Bilac

UFPR
Universidade Federal do Paraná
Anjo Negro – Nelson Rodrigues
Claro Enigma – Carlos Drummond de Andrade
Fogo Morto – José Lins do Rego
Inocência – Visconde de Taunay (Alfredo d’Escragnolle Taunay)
Luciola – José de Alencar
Os Dois ou o Inglês Maquinista – Luís Carlos Martins Pena
O Bom Crioulo – Adolfo Caminha
Poemas Escolhidos – Gregório de Matos (organização de José Miguel Wisnik)
Urupês – Monteiro Lobato
♦ A Última Quimera – Ana Miranda

UFRGS
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Terras do Sem Fim - Jorge Amado
Boca de Ouro - Nelson Rodrigues
As Parceiras - Lya Luft
O Guardador de Rebanhos - Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)
Memórias de um Sargento de Milícias - Manuel Antônio de Almeida
Esaú e Jacó - Machado de Assis
A Educação pela Pedra - João Cabral de Melo Neto
História do Cerco de Lisboa - José Saramago
O Centauro no Jardim - Moacyr Scliar
Contos Gauchescos - João Simões Lopes Neto
O pirotécnico Zacarias; O ex-mágico da Taberna Minhota; Bárbara; A cidade; Ofélia, meu cachimbo e o mar; A flor de vidro; Os dragões; Teleco, o coelhinho; O edifício; O lodo; O homem do boné cinzento; O convidado - Murilo Rubião
A Nosso Senhor Jesus Christo com actos de arrependimento e suspiros de amor; A Jesus Cristo Nosso Senhor; Inconstância dos bens do mundo; À cidade da Bahia (2) (soneto); A Maria dos povos, sua futura esposa; Epílogos; A uma dama; A instabilidade das cousas no mundo; A certa personagem desvanecida; Aos principais da  Bahia chamados caramurus; À procissão de cinza em Pernambuco; Milagres do Brasil São; Retrato/Dona Ângela; Contemplando nas cousas do mundo; E pois coronista sou; Ao padre Lourenço Ribeiro, homem pardo que foi vigário da freguesia do Passé; Define a sua cidade; Descreve a vida escolástica; À cidade da Bahia (2); Aos vícios; Descreve a confusão do festejo do Entrudo; Solitário em seu mesmo quarto à vista da luz; Aos afetos e lágrimas derramadas; Admirável expressão que faz o poeta de seu atencioso silêncio; Definição do amor – romance - Gregório de Matos Guerra.

UFSC
Universidade Federal de Santa Catarina
Helena – Machado de Assis
Clarissa – Érico Veríssimo
Amar, verbo intransitivo – Mário de Andrade
Orfeu da Conceição – Vinicius de Moraes
Gabriela, cravo e canela – Jorge Amado
A Hora da Estrela – Clarice Lispector
Últimos Sonetos – Cruz e Sousa
O detetive de Florianópolis – Jair Francisco Hamms

UFSJ
Universidade Federal de São João del-Rei

Módulo II - PAS 2013/2
♦ Antologia Poética – Olavo Bilac
♦ Esaú e Jacó – Machado de Assis
♦ Lira dos Vinte Anos – Álvares de Azevedo

UFSM
Universidade Federal de Santa Maria

PS1
Melhores poemas de Cláudio Manuel da Costa – Org. Francisco Iglesia
A carta de Pero Vaz de Caminha – Org. Sílvio Castro
O Uruguai – Basílio da Gama
Sermão de Santo Antônio aos Peixes – Padre Antônio Vieira

PS2
Iracema – José de Alencar
Várias histórias – Machado de Assis
Noite na taverna – Manuel Antônio Álvares de Azevedo
Grandes poemas do romantismo brasileiro – Org. Alexei Bueno
O bom crioulo – Adolfo Caminha

PS3
Calabar, o elogio da traição – Ruy Guerra e Chico Buarque
Nove noites – Bernardo Carvalho
A hora e a vez de Augusto Matraga – João Guimarães Rosa
Os cem melhores contos brasileiros do século – Org. Italo Mariconi
Os cem melhores poemas brasileiros do século – Org. Italo Mariconi
Noite – Érico Veríssimo

UFT
Universidade Federal do Tocantins
Os Órfãos do Eldorado – Milton Hatoum
Felicidade Clandestina – Clarisse Lispector
Bagagem – Adélia Prado
O Teatro de Múcio Breckenfeld (Coletânea Volume I) – Múcio Breckenfeld

UFV
Universidade Federal de Viçosa

2ª etapa Pases 2013
Esaú e Jacó – Machado de Assis
O Cortiço – Aluísio Azevedo
Antologia Poética – Olavo Bilac

UFVJM
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri

1ª etapa SASI 2013
A carta – Pero Vaz de Caminha
Antologia Poética – Gregório de Matos
Meu Livro de Cordel – Cora Coralina

2ª etapa SASI 2013
Esaú e Jacó – Machado de Assis
Antologia Poética – Olavo Bilac
A Moreninha – Joaquim Manoel de Macedo

UNEB
Universidade do Estado da Bahia
O Largo da Palma - Adonias Filho
Tenda dos Milagres - Jorge Amado
Além de Estar - Helena Parente Cunha
Essa Terra - Antônio Torres
O Desterro dos Mortos - Aleilton Fonseca
A morte e a morte de Quincas Berro D’Água - Jorge Amado

Unemat (Vestibular Específico)
Universidade do Estado de Mato Grosso
♦ A cidade e as serras – Eça de Queirós
♦ Auto da compadecida – Ariano Suassuna
♦ Estrela da vida inteira – Manuel Bandeira
♦ Memórias de um sargento de milícias – Manuel Antonio de Almeida
♦ Memórias póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis
♦ Menino do mato – Manoel de Barros
♦ O cortiço – Aluízio de Azevedo
♦ O primeiro beijo e outros contos – Clarice Lispector
♦ Primeiras estórias – Guimarães Rosa

Unicentro
Universidade Estadual do Centro-Oeste
A Rosa do Povo – Carlos Drumond de Andrade
As Melhores Crônicas – Rachel de Queiroz
Contos Novos – Mário de Andrade
Dois Irmãos – Milton Hatoum
Dom Casmurro – Machado de Assis
Jangada de Pedra – José Saramago
Melhores Poemas – Manuel Bandeira
Muitas Vozes – Ferreira Gullar
O Rei da Vela – Oswald de Andrade
Tempo de Menino – Domingos Pelegrini

Unimontes
Universidade Estadual de Montes Claros

1ª etapa PAES 2013
Caramuru – Frei José de Santa Rita Durão
História da Província de Santa Cruz – Pero Magalhães Gândavo
A Santa Inês – José de Anchieta
Crônicas do Descobrimento – Antônio Carlos Olivieri e Marco Antônio Villa
Felicidade Clandestina – Clarice Lispector
Filme - Caramuru: a invenção do Brasil (2001) – Guel Arraes

2ª etapa PAES 2013
10 contos insólitos - Histórias insólitas – Machado de Assis ­
Encarnação – José de Alencar
Noite na Taverna – Álvares de Azevedo
A luneta Mágica – Joaquim Manuel de Macedo

3ª etapa PAES 2013
Navio Negreiro e Canção Africana – Castro Alves
Negrinha (conto) – Monteiro Lobato
Clara dos Anjos – Lima Barreto
Clara dos Anjos: História em Quadrinhos – Marcelo Lélis
Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves
Filme: A Cor Púrpura – Steven Spielberg

URCA
Universidade Regional do Cariri
Faca – Ronaldo Correia de Brito
Contos Negreiros – Marcelino Freire
Para viver um grande amor – Vinícius de Moraes
O silência laminado do casulo – Cleílson Pareira Ribeiro
Aves de Arribação – Antônio Sales
As odes de Ricardo Reis – Fernando Pessoa

UVA (CE)
Universidade Estadual do Vale do Acaraú
Triste Fim de Policarpo Quaresma - Lima Barreto
Helena - Machado de Assis
Casa de Pensão - Aluísio Azevedo
A Carne - Júlio Ribeiro
O Seminarista - Bernardo Guimarães




sábado, 5 de outubro de 2013

"Macunaíma" - Filme completo


Para fazer download da obra:    http://download.baixatudo.globo.com/docs/Macunaima.pdf

MACUNAÍMA E A FORMAÇÃO DE UMA CULTURA BRASILEIRA
Fábio Della Paschoa Rodrigues
“A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. (...) Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. (...) Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.”
(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)
INTRODUÇÃO
O movimento modernista da década de 20 ambicionava tornar o Brasil uma nação com forma própria, conquistando nossa individualidade cultural e um lugar no “concerto das nações”, como dizia Mário de Andrade. Nessa tarefa, o autor modernista, baseando-se em certas teorias históricas e filosóficas, empenhou-se em produzir um trabalho que afirmasse a entidade nacional e assim criou o seu Macunaíma.
Neste trabalho, discutiremos questões nacionais levantadas por Macunaíma e  as influências e analogias entre a obra de Mário de Andrade e algumas das grandes teorias históricas, particularmente as de Herder, Spengler e Keyserling. Além disso, transportaremos as imagens macunaímicas para nossa realidade atual “globalizada”, fazendo um pequeno paralelo entre Macunaíma e o Brasil dos anos 90 do século XX.
AS INTENÇÕES DE MACUNAÍMA
Como o próprio Mário declarou, ele teve muitas intenções ao escrever Macunaíma, tratando de diversos problemas brasileiros: a falta de definição de um caráter nacional, a cultura submissa e dividida do Brasil, o descaso para com as nossas tradições, a importação de modelos socioculturais e econômicos, a discriminação lingüística etc. Mas a principal preocupação de Mário de Andrade foi buscar uma identidade cultural brasileira. O Brasil na época (e também hoje) não tinha “competência” para desenvolver uma cultura autônoma e toma emprestado modelos europeus, que não se adaptam ao nosso clima quente. A nossa cultura, então, deveria ser distinta das outras e possuir, por outro lado, uma totalidade racial; deveria provir das raízes que aqui haviam, das culturas populares existentes nos recantos do país. O Brasil, como entidade cultural, seria construído pela mistura de todas essas culturas (orais) de cada região brasileira. É justamente o que o escritor faz em Macunaíma: compõe a sua rapsódia reunindo lendas, folclores, crendices, costumes, comidas, falares, bichos e plantas de todas as regiões, não se referindo a nenhuma delas, misturando inclusive as diversas manifestações culturais e religiosas, dando assim um aspecto de unidade nacional, que não condiz com a realidade dividida de nossa cultura. Referindo-se a essa “desgeografização”, Mário de Andrade anota num de seus prefácios inéditos:
“Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim desregionalizava o mais possível a criação ao mesmo tempo que conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea = um conceito étnico nacional e geográfico.”
Comentando esse esforço de juntar os elementos constitutivos do ser nacional, Eduardo Jardim de Moraes (In: Berriel, 1990)  nota que:
“Na composição de Macunaíma e em seus escritos críticos da época nota-se o cuidado rigoroso de efetuar o levantamento do material que torna possível traçar o perfil do Brasil. Era intenção de Mário de Andrade, em sua perspectiva analítica, ao justapor os variados elementos culturais presentes na esfera nacional, chegar à definição de um elemento comum que qualificasse todos como pertencentes ao mesmo patrimônio cultural.”
Para Mário de Andrade, a modernização brasileira, isto é, a conquista de uma identidade cultural só seria possível se tomássemos consciência de nossas tradições. Em entrevista concedida em 1925, o escritor afirma que “ toda tentativa de modernização implica a passadização da coisa que a gente quer modernizar”. Vai mais além: “nós só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um contingente original e nacional de cultura”. Macunaíma é, portanto, uma tentativa de modernizar o Brasil através do passado, de nossas tradições; é também a tentativa de fundar a raça brasileira, estreitamente ligada ao seu ambiente geográfico, ao seu clima.
Todas essas intenções macunaímicas tomam por base conceitos de raça e cultura construídos pela filosofia européia, particularmente a alemã. Ele como que tomou emprestado certos conceitos, mas adaptando-os ao nosso clima quente. Passemos então, a analisar os pontos de convergência entre sua obra e as teorias históricas.
MACUNAÍMA E AS TEORIAS HISTÓRICAS
Comecemos analisando as relações entre a obra andradiana e o pensador alemão Johann Gottfried Herder (1744-1803). Para Herder, a característica mais importante da história é a pluralidade e a individualidade das nações, justamente o que buscavam nossos modernistas.
Apesar de não haver material comprovando que Mário de Andrade leu Herder – conforme aponta C. E. Berriel (1987), as idéias deste pensador são claramente notadas na obra do escritor (que podem ter vindo através de Spengler ou do Romantismo brasileiro, ambos influenciados por Herder). O filósofo acreditava que “a literatura de uma nação deve ser verdadeira para com as tradições e o caráter íntimo da mesma nação, e a sua atitude para com a natureza” (Gardiner, 1995). Ora, Macunaíma é esta literatura: busca resgatar as tradições folclóricas brasileiras e afirmar um caráter nacional (que, para Mário, supostamente não há). O pensamento herdiano enfatiza os conceitos de caráter nacional e de meio ambiente, em que há uma unidade entre geografia, cultura e raça. Lendo atentamente Macunaíma, percebemos que Mário de Andrade utiliza todos esses conceitos em seu  livro: nosso herói adquire características adequadas ao meio em que vive, ao seu espaço geográfico (que depois abandonará como sabemos), ele é a tentativa de fundar a raça brasileira a partir das “três raças tristes” que dão origem ao brasileiro e, mais ainda, é a possibilidade da criação de uma cultura nacional autêntica.
O escritor modernista partilhava da mesma idéia de que a paisagem está dentro do ser humano, como experiência coletiva ou individual de estar em um determinado lugar, a natureza captada pelos sentidos. Na concepção de Herder, o homem se origina a partir e dentro de uma raça, que está intrinsecamente ligada à paisagem, como ele ilustra em uma metáfora:
“Tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades atuantes e o seu sabor, assim o antigo caráter dos povos proveio de traços raciais, do clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das ações peculiares a cada um desses povos.”
Neste sentido, Mário traduz literariamente a filosofia de Herder. Ele acreditava que deveríamos construir uma cultura, em sentido amplo, adaptada ao nosso clima, à nossa paisagem. Em resposta a um questionário da Editora Macaulay, em 1933, Mário declarou: “Tanto o meu físico como as minhas disposições de espírito exigem as terras do Equador. Meu desejo é ir viver longe da civilização, na beira de algum rio pequeno da Amazônia...” Ele acreditava que a preguiça era uma necessidade para os povos de clima quente como o Brasil, já que o “trabalho semanal e de tantas horas diárias” era coisa de civilizações cristãs de clima frio.
Mário de Andrade problematiza em Macunaíma as idéias de Herder  segundo as quais o destino de um povo “depende primordialmente do tempo e do lugar em que nasce, das partes que o compõem e das circunstâncias exteriores que o rodearam”. Para a formação da entidade nacional é necessário superar todos esses obstáculos que se impõem diante do herói: primeiramente ele não tem caráter, não é ligado ao seu meio geográfico (que, inclusive, renega ao final do livro), as partes (raças) que o compõem são conflitantes com a opressão do componente europeu, o tempo em que o Brasil vive passa por um período de transição, início da industrialização nacional. Verificamos vários outros obstáculos que nosso herói encontra e que tem relação com a teoria herdiana. Herder acreditava que os povos incultos adquirem conhecimentos pela prática ou pelo intercâmbio com outros, mas Macunaíma (o Brasil, na verdade) só importa conhecimento, não troca, ou quando o faz troca “borboletas” por “idéias”, isto é troca o “exótico” pelo “civilizado”. Ainda para ele, os povos permanecem ligados entre si, influenciando uns aos outros, de acordo com a relação de maior ou menor poder, em que o país submisso é subjugado pelo opressor; o Brasil, nessa relação é quase totalmente submetido à cultura cristã européia e não tem forças para influenciar esse continente. Enfim, o Brasil só se consolidaria como entidade cultural se crescesse das próprias raízes, como preconizava o filósofo alemão. Macunaíma, ao invés disso, abandona suas raízes e se rende ao clima frio europeu, desprezando suas tradições e renegando sua paisagem tropical.
Para Herder a história de um povo é orgânica (como também para Spengler, como veremos mais adiante): “uma nação, tal qual o homem, crescerá e morrerá, inevitavelmente”. Mário de Andrade descreve literariamente a nossa história orgânica, desde o nascimento da possível cultura brasileira até seu quase desenvolvimento e enfim sua morte, ou seja, a vida de Macunaíma.
A influência de Oswald Spengler (1880-1936), outro pensador alemão, na obra de Mário de Andrade é patente e reconhecida. Mário leu e se inspirou na obra “A decadência do Ocidente” e em diversas passagens de Macunaíma reconhecemos imagens spenglerianas.
Segundo P. Gardiner (1995), Spengler dá preferência “ao instinto, em oposição ao entendimento, à vida no campo em oposição à vda na cidade, a fé e o respeito pela tradição em oposição ao cálculo racional e ao interesse próprio, à intuição e à imaginação em oposição à análise e ao método científico”. Ainda para Spengler, “uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em meio do informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, à qual se apega, qual planta”. Isto é, com algumas modificações, a descrição de Macunaíma.
Vejamos: Macunaíma é essa alma adormecida que nasce do ilimitado (o “silêncio tão grande”) no “fundo do mato virgem”, portanto, muito longe da cidade; ele usa sua mágica (intuição) para agir e prever as coisas. Mas nosso herói ficará para sempre “carinha enjoativa de piá”, pois enganara as tradições folclóricas, que ora defende ora se afasta delas (defende o Pai do Mutum  mas foge de Capei); age sempre por interesse próprio, não tem caráter; e não se apega “qual planta” à sua paisagem.
Percebemos no livro as diversas oposições levantadas por Spengler: destino x causalidade, cultura x civilização, história x natureza, crescimento e vida xdecadência e morte. Aliás, a oposição principal de Macunaíma não é a do herói com o gigante Venceslau Pietro Pietra, mas sim a oposição entre a mata tropical e a cidade temperada, ou seja, a oposição entre cultura (tradição) e civilização, que é oposição básica de Spengler.
No percurso do “herói de nossa gente”, Mário tenta construir a cultura brasileira, segundo os conceitos de Spengler, para quem “as massas de seres humanos fluem numa corrente sem obstáculos, da qual surge de vez em quando a Kultur autoconsciente”; porém, a falta de caráter do herói não possibilita o surgimento da cultura brasileira. Além disso, o herói de nossa gente encontra obstáculos na sua vida, quando está se desenvolvendo: ele se depara com o roubo da muiraquitã (cultura brasileira) pelo gigante Piaimã – o Brasil ao tentar construir sua unidade cultural encontra a Europa no meio do percurso.
Assim como para Herder, Spengler acredita que a força da cultura depende das raízes, da adaptação à terra, à afinidade com a natureza e a consolidação da raça. Para ele, “a História Mundial é a história da ascensão e queda de nações e raças”. E a raça é uma questão de um “sentimento comum” que une gerações sucessivas num todo. Spengler, como já dito, construiu uma concepção orgânica de história e foi além de Herder, supostamente prevendo o destino de todas as civilizações. Outro ponto de concordância entre os dois filósofos era a afirmação de que cada cultura tem o seu caráter específico ou “alma”. Na visão spengleriana “cada cultura tem as suas possibilidades de expressão, que surgem, amadurecem, decaem e não voltam a se repetir”. Já vimos que Mário utiliza essas idéias em seu livro, contando a vida do herói brasileiro, na verdade a vida da cultura brasileira.
Mário também crê na concepção spengleriana de que a indústria (o estágio mais avançado da civilização) é o grande inimigo da Natureza. Ela destrói as nações, as culturas nacionais. A máquina altera a relação do homem com a Natureza, interpondo-se entre eles. Macunaíma se vende às máquinas, quase se tornando uma, e assim frustra-se a tentativa de se estabelecer uma cultura nacional. O herói, como não tem caráter, é facilmente comprado pelas atrações da máquina, esquece a natureza, renega as tradições. Na cidade não há espaço para o sagrado, pois “isso de deuses era gorda mentira antiga” como diz uma “filha da mandioca” para o herói. A máquina não era deus e ninguém podia brincar com ela , pois ela matava. Ao refletir sobre máquinas e homens, Macunaíma chega à conclusão de que “os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens”. Nesse momento, nosso herói começa a maquinar, ele absorve a civilização pois não tem caráter.
Na cidade não há povo, mas uma massa. A cidade-máquina devora os homens e Macunaíma também é devorado por São Paulo. Ele não consegue mais viver e, outro solo que não esse, petrificado; a mata já lhe é estranha e  monótona, ele não compreende mais o silêncio que o originou. Assim, Macunaíma, nas palavras de Spengler, “leva a cidade constantemente comsigo (...) perdeu o campo em seu interior e nunca mais o encontrará no mundo de fora”.
A gênese das culturas, na teoria spengleriana, é representada pelo mundo rural, o urbano é a corporificação da decadência das civilizações; a civilização “é um epílogo, a morte seguindo-se à vida, a rigidez seguindo-se à expansão (...) o mundo-cidade petrificante seguindo-se à mãe-terra.”. Macunaíma, rendendo-se à civilização, entra em decadência, petrifica-se e vê São Paulo se petrificar. Mário constrói uma imagem magnífica: para ele, São Paulo deveria se preocupar com o exercício da preguiça, mas como não tem caráter, ela se transforma em um imenso bicho preguiça de pedra.
Mas a cultura brasileira não morre de todo. Mário, de certa forma, acredita no Brasil e deixa, no final do livro, a possibilidade de construirmos a nossa cultura: Macunaíma, na verdade, não morre, sobe para o campo vasto do céu, vira tradição, que poderá ser resgatada e transmitida (como aliás, é transmitida ao próprio Mário noEpílogo).
Essa visão otimista com relação à formação de uma nação brasileira, Mário deve a Keyserling, único pensador que teve sua influência creditada explicitamente, num dos prefácios inéditos.
Na concepção de Keyserling, o homem é uma entidade real que se manifesta através de criações culturais. A teoria dele, assim como a de Herder, afirma o particularismo das culturas e ao mesmo tempo seu lugar universal. O conceito de cultura keyserlinguiano está relacionado a um passado vivo e a cultura “é a forma da vida, como imediata expressão do espírito (...) é obrigação com relação a um passado vivo, (...) é exclusiva e, portanto, estritamente limitada no exterior; é essencialmente unitária, pelo que cada coisa particular nela pressupõe e alude à totalidade” (que, enfatizamos, é o conceito utilizado pelos modernistas de 20). Mas, diferentemente de Spengler, para ele “todas as culturas tradicionais do planeta estão em decadência”, não só a civilização ocidental. Mas se Keyserling considera que todas as culturas tradicionais estão em decadência, porque centradas “no irracional, no  impulsivo” – que é intransferível e, assim, não dando continuidade à cultura, por outro lado, a cultura pode ser perpetuada através de tradições vivas.
Mário compartilhava do otimismo de Keyserling, que acreditava que a tradição viva era a via de transmissão da cultura, a despeito da decadência inevitável das civilizações. Por isso Macunaíma, apesar de ter perdido a muiraquitã (a cultura brasileira) vira constelação (tradição). Ou seja, agora ele se transformou em instrumento de transmissão do que poderia vir a ser a entidade brasileira. O projeto andradiano, portanto, pode ser resgatado pelas gerações futuras.
Para Keyserling uma nova cultura se desenvolve “quando da mescla se origina o equivalente a uma nova raça definida”. Esse postulado permite Mário de Andrade conceber a gênese da Raça brasileira, criando seu herói a partir da mescla das três raças tristes (índio, branco e negro). Nosso herói, infelizmente como sabemos, deixa que sua porção branca oprima as outras e se vende à civilização decadente, não definindo uma nova Raça. Cabe ressaltar aqui que a porção branca de Macunaíma – vinda dos portugueses – já era mestiça e não se constituía como Raça; citando Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil:  os portugueses apresentavam “ausência completa, ou praticamente completa de qualquer orgulho de raça (...) Essa modalidade de seu caráter explica-se muito pelo fato de serem os portugueses um povo de mestiços”.
Mário de Andrade encontra outro ponto de apoio em Keyserling, com relação à  aversão à industrialização nascente, ao capitalismo verdadeiro, como nota C.Berriel (1987):
“Keyserling oferece uma alternativa “não-burguesa” de leitura da realidade histórica, ao rejeitar a economia e a materialidade como formas explicativas. Assim, a crise da sociedade contemporânea pôde ser vista, tanto por Spengler e Keyserling, como por Mário de Andrade, como uma crise da cultura pura e simplesmente”.
Todas essas postulações keyserlinguianas deram base para que Mário criasse seu “poema fundador” da raça brasileira ligada à paisagem tropical, e, por conseqüência, desenvolver a cultura brasileira. Ao pessimismo de Spengler, Mário prefere a possibilidade keyserlinguiana de manter a tradição brasileira viva, na esperança de que ela venha a se despertar novamente; por isso mesmo é que escuta do papagaio a vida do herói de nossa gente e nos transmite.
AS IMAGENS MACUNAÍMICAS E O BRASIL ATUAL
À luz das idéias e conceitos expressos em Macunaíma, transportaremos algumas  de suas imagens para o Brasil da era globalizada. A intenção aqui não é aplicar uma teoria histórica (ou sua releitura literária) à atualidade brasileira, nem fazer uma crítica aprofundada sobre a cultura brasileira nos dias de hoje; para isso, seriam necessárias pesquisa e análise mais aprofundadas. A intenção é  mostrar pontos de contato entre obra de Mário de Andrade e nosso atual contexto cultural e econômico, é também mostrar que a tradição macunaímica se faz sentir em nossos dias, com as mesmas questões que preocupou os modernistas na década de 20.
A Globalização implica na anulação da identidade nacional dos povos. Ela supostamente unificaria todas as nações o que, na verdade, levaria à perda da identidade cultural de cada nação. Neste sentido, a nova caminha para um objetivo contrário ao das teorias de Herder, Keyserling e da proposta modernista, em que a cultura se afirma como nação pela sua particularidade. O mundo globalizado não admite tradições e particularidades, num momento em que a palavra de ordem é “comunicação”. Comunicação virtual, a informação em alta velocidade através da máquina computador. Uma tribo africana sem e-mail ou home page ficará obsoleta, entrará em decadência, muito mais rapidamente que as civilizações preconizadas por Spengler. A civilização conquistou de tal forma uma técnica apurada – as novas tecnologias, que aceleram desenfreadamente o desaparecimento da cultura tradicional, como dizia Keyserling.
A cultura brasileira, seduzida por essa Uiara, está cada vez mais enxertada de estrangeirismos, que passaram a ser considerados como agregados culturais que contribuiriam para o enriquecimento de nossa “cultura”. O povo (quer dizer, a massa) não se dá conta muitas vezes de que essas “contribuições” na verdade fazem parte de um processo de “lavagem cerebral” das nossas tradições, que a influência cultural e econômica continua sendo unilateral. Não há fluxo de troca entre Brasil e a nova civilização ocidental hegemônica, os Estados Unidos, por exemplo; exportamos “futebol” e importamos “tecnologia”. Cada vez mais nossa realidade é afetada pela bolsa de Nova Iorque, de Tóquio, de Hong Kong etc... Cada vez mais a nossa cultura se rende a enlatados norte-americanos, mexicanos, argentinos... pois a produção nacional (quer seja cultural, social, econômica) não tem valor.
O atual herói se vendeu muito mais facilmente à civilização que o Macunaíma. O novo herói de nossa gente é o Sr. Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (FHC) que, assim como Macunaíma, não tem caráter: lutou contra a ditadura militar mas entrega agora o país ao capital estrangeiro; diz estar ao lado do povo, mas no capítulo seguinte declara que os aposentados são vagabundos e  aprova um plano de previdência que prejudica os trabalhadores; diz defender os pobres para depois salvar bancos privados da falência, despendendo cifras milionárias e cobra mais impostos dos cidadãos. Ele esquece nossas “tradições” e vende nosso petróleo, nossa energia, nossas telecomunicações para os civilizados europeus e norte-americanos. Os gigantes Piaimãs ACM, Tio Sam, FMI querem devorar nosso herói que, para se salvar (entenda-se: salvar a si próprio, não a nação) se transforma em Superman ou Tio Patinhas usando sua “mágica”. A Uiara Globalização seduziu nosso herói por completo, sem a hesitação de Macunaíma.
Percebemos que há várias semelhanças entre as aventuras macunaímas e as aventuras de FHC. Talvez Mário de Andrade, Spengler e Keyserling tenham razão e a depender do novo herói, nosso quadro confirmará as teorias aqui comentadas, reiterando o que Sérgio Buarque de Holanda declarou em seu Raízes do Brasil: “somos uns desterrados em nossa terra”.
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Mário de. Entrevistas e Depoimentos. Edição organizada por Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: T. A. Queiroz, 1983.
__________. Macunaímao herói sem nenhum caráter – Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978.
__________. O Turista Aprendiz. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983.
BERRIEL, Carlos Eduardo (org.). Mário de Andrade hoje. São Paulo: Ensaio, 1990.
________. Dimensões de MacunaímaFilosofia, Gênero e Época. Tese de Mestrado, UNICAMP, 1987.
GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995.
HERMAN, Arthur. A idéia de decadência na história ocidental. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999. Cap.7
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971.
LOPEZ, Telê Porto Ancona. Macunaímaa margem e o texto. São Paulo: Hucitec, Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, 1974.

                                                  http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/m00002.htm

sábado, 15 de junho de 2013

Brás, Bexiga e Barra Funda.

Brás Bexiga e Barra Funda, de Alcântara Machado

Análise da obra

Alcântara Machado publicou Brás, Bexiga e Barra Funda, em 1927, sendo sua segunda publicação. A obra, da primeira fase do Modernismo, tem, ao invés de um prólogo, um artigo de fundo e o autor confessa que os contos não nasceram contos, mas sim notícias. Alcântara Machado busca fixar tão somente alguns aspectos da vida quotidiana dos novos mestiços nacionais e nacionalistas. Seu processo lingüístico é imitável, inimitável é o espírito, o estilo, animado por uma verve, uma graça e um humor absolutamente pessoais.

Estrutura

O livro é montado através de pequenos quadros sobre o cotidiano pobres de São Paulo, juntando episódios de rua, que o próprio autor intitulava de “notícias”. São 11 contos da mais bem-humorada prosa cubo-futurista, onde vai juntando quadros urbanos que ficam entre a crônica, a notícia e o conto leve.

É possível estabelecer uma aproximação entre Alcântara Machado e Lima Barreto pela atitude jornalística de ambos e pela preferência na retratação do proletariado — os filhos dos carcamanos, no primeiro, e o homem do subúrbio, no segundo.

Os contos mantêm uma característica fundamental do gênero que é a densidade. Todos são curtos e apresentam os elementos mínimos indispensáveis, sem alongar-se em qualquer descrição de cenário ou de personagem. Apresenta apenas os dados essenciais para que a narrativa possa ancorar no espaço desejado, valorizando o mapeamento da cidade, por isso, são freqüentes as citações de nome de ruas e de bairros.

Espaço / Tempo

O espaço é essencialmente urbano, com suas dificuldades e com a luta das pessoas para nele se adaptarem. Podemos dividi-lo em espaço interno, fechado, mostrando as pessoas em casa, no seu viver cotidiano, seja numa condição não muito comum, como o velório, seja na rotina diária, como uma refeição ou conversação informal.

O tempo é cronológico e alguns contos apresentam unidade de tempo, como: Lisetta, Corinthians (2) x. Palestra (1), O monstro de rodas, Armazém Progresso de São Paulo, desenvolvendo-se a ação num só dia. Outros contos, porém, já não apresentam essa unidade, com a ação alongando-se por mais de um dia, numa seqüência revelada de modo elíptico, muitas vezes representado simbolicamente pela duplicação do espaço em branco, que separa um parágrafo do outro, uma ação da outra, num corte cinematográfico. Exemplo disso são os contos: Gaetaninho, Carmela, Tiro-de-guerra 35, Amor e sangue, A sociedade, Nacionalidade.

Foco narrativo

Narrado em 3ª pessoa a modernidade se revela através do jogo de fragmentos, reunindo lances da vida urbana de imigrantes e paulistas tradicionais numa cidade em franco progresso. Entre os elementos mais destacadamente modernos do livro, está a sua forma narrativa, feita em blocos, que funcionam como cenas.

O principal processo narrativo em Brás, Bexiga e Barra Fundaé o diálogo — o diálogo ponto de vista da narrativa, o diálogo revelador de caracteres e o diálogo sugestão de ambientes, ou ainda o discurso indireto vivo, uma forma de dialogação polifônica.

No conto Gaetaninho, esses processos realizam-se através da libertação da construção tradicional da frase e do aproveitamento da vivacidade do coloquial, na visão do menino que brinca, é castigado, sonha com a morte da tia só para andar de carro e morre atropelado.

Linguagem

Quanto à linguagem  propriamente dita, ela é o elemento igualmente central do caráter moderno do livro. Uma das marcas de Brás, Bexiga e Barra Funda é a leveza conseguida por meio do discurso direto, predominante na obra. As personagens têm a oportunidade de falar diretamente por meio dos diálogos, exprimindo suas emoções, tristezas e esperanças com toda a carga expressiva e a coloquialidade que lhes é característica. Os diálogos propiciam também maior sensação de realismo e de proximidade entre personagens e leitor. A história ganha em dinamismo e, graças à sutil ironia de Alcântara Machado, em humor. Além do mais, a leitura dos 11 pequenos contos reunidos nesta obra faz que sintamos o processo de abrasileiramento do italiano.

Antônio de Alcântara Machado traz na linguagem uma marca muito própria dos modernistas da primeira geração: a recusa à linguagem empolada, retórica, cheia de volteios. Ao contrário sua linguagem é marcada pelo estilo telegráfico, conciso. As frases são na sua maioria formadas por orações coordenadas e curtas, garantindo sempre um mesmo ritmo ao texto:

Foi-se chegando devagarinho, devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do Chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta e varou pela esquerda porta adentro.

Personagens

Os personagens são “planos”, superficiais, não apresentam transformações surpreendentes durante a narrativa. As personagens são apresentadas de modo sumário e rápido, embora não seja uma caricatura, apesar do humor. Alguns são verdadeiros tipos como Carmela e Salvatore Melli, mas outros também apresentam uma base psicológica como Gaetaninho.

Na busca pela adaptação cultural e econômica, encontramos as costureirinhas curiosas pelo mundo do qual não fazem parte, mas conscientes de que devem continuar a fazer suas famílias na colônia, as crianças vítimas do preconceito, da pobreza e da injustiça que cerca o imigrante de classe mais baixa, os comerciantes gananciosos e suas famílias buscando uma posição social, os jovens trabalhadores e apaixonados, os quatrocentões paulistas, nobres e falidos, diante dos “carcamanos” endinheirados e “sem berço”.

Problemática e temas principais

Os temas mais recorrentes nos contos da obra em análise são:

1. A luta do Italiano pobre para conseguir seu dinheiro (Tiro-de-Guerra nº 35, Nacionalidade).

2. Ascensão social do italiano (Notas Biográficas do Novo Deputado, Nacionalidade).

3. Integração do italiano com o brasileiro (A Sociedade).

4. O despreparo da cidade e dos adultos com relação à criança que não tem um espaço adequado nem uma atenção necessária, quebrando a cara e a cabeça (Gaetaninho, O Monstro de Rodas).

5. Crítica social — Embora tenha avisado no “artigo de fundo” que não faria crítica ou denúncia social, podemos dizer que não é verdade, embora não o faça como narrador, mas coloca na boca das personagens várias pílulas críticas como em O Monstro de Rodas, quando alguém comenta: “Não conhece a podridão da nossa imprensa. Que o quê, meu nego. Filho de rico manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo. É ou não é, seu Zamponi?”

6. Obra datada — Sua obra fica prejudicada por determinadas técnicas que tornam a obra muito datada, dificultando para os leitores jovens de hoje a sua total apreensão. Algumas dessas técnicas são:

— emprego de gírias que já foram esquecidas (estava achando um suco = achava muito bom);

— nome de produtos que deixaram de ser fabricados (cláxon);

— o mapearmento da cidade de São Paulo (Rua do Gazômetro, Rua do Oriente);

7. Nomes de firmas ou de lojas que deixaram de existir (vestido do Camilo, Ao Chic Parisiense);

8. Referências a fatos ou acontecimentos que desapareceram da memória de quase todo mundo.

Enredo dos contos

1. Gaetaninho -
A narrativa é feita em terceira pessoa, com narrador onisciente e tem como espaço a Rua do Oriente. As personagens que a compõem são os italianinhos ou "intalianinhos"; a protagonista é Gaetaninho, maluco por futebol a ponto de ficar o dia inteiro jogando bola de meia na rua, com os amigos. Ficava tão concentrado que não vê o Ford, a carroça. Mas

"Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.

- Súbito!

Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.

Eta salame de mestre!"

Ali na rua do Oriente, todo mundo era pobre e todo mundo andava de bonde. De automóvel ou carro, só mesmo quando morria alguém ou alguém casava. Naquela tarde, por exemplo, Beppino tinha atravessado a cidade de carro, acompanhando tia Peronetta que se mudava para o Araçá (tia Peronetta havia morrido e esta é uma forma popular de dizer que ela fora enterrada no Araçá).

Gaetaninho driblou a mãe, entrou.

Enfiou a cabeça debaixo do travesseiro e sonhou que tia Filomena tinha morrido. Lá ia Gaetaninho na boléia, sonho antigo de menino, vestido de roupa marinheira e gorro onde se lia "Encouraçdo São Paulo"... não, melhor com a palhetinha nova que ganhara de presente do irmão.

Quando contou o sonho, e no sonho vira o Savério, noivo de tia Filomena, chorando, a tia teve uma taque de nervos, Gaetaninho , arrependido, colocou no lugar da tia o seu Rubino, que era acendedor da Companhia de Gás e que um dia tinha lhe dado um cocre.

Os irmãos, depois de contado o sonho com a tia Filomena, apostaram no elefante, mas deu a vaca no jogo do bicho...

Gaetaninho vai brincar outra vez com os amigos, jogando bola. Distraiu-se:

- Traga a bola!

Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.

No bonde vinha o pai do Gaetaninho.

A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.

- Sabe o Gaetaninho?

- Que é que tem?

- Amassou o bonde!

A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.

Comentário: Neste conto pode-se notar no comportamento dos meninos uma demonstração de impiedade natural que tanto pode ser fruto da própria idade, quanto da vida urbana moderna. Percorre o texto um humor negro, resultado de uma ironia amarga.

2. Carmela - Carmela sai da oficina às 18h30, em meio a muitas outras costeirinhas "que riem, falam alto, balançam os quadris como gangorras." Os automóveis, com sua buzinas gritadoras, lotam a rua Barão de Itapetininga.

Bianca, feia e estrábica, caminha ao lado da amiga Carmela, em meio aos automóveis e os homens namoradores. É dela uma espécie de sentinela.

Um rapaz que usa óculos para o Buick de propósito na esquina. O Ângelo espera na Rua Barão. Carmela está interessada nele:

"Bianca retarda o passo.

Carmela continua no mesmo. Como se não houvesse nada. E o Ângelo junta-se a ela. Também como se não houvesse nada. Só que sorri.

- Já acabou o romance?

- A madama não deixa a gente ler na oficina."

Vão caminhando juntos, falando do baile de amanhã, o Buick passa e repassa, Bianca é perguntada pelo motorista sobre onde mora a Carmela. Mesmo que esteja acompanhada de outro, o rapaz do Buick não dá sossego...

Bianca entrega tudo: como se chama a amiga, onde mora, rua, número, bairro. E o moço ainda deixa com ela um recado: "- Diga a ela que eu a espero amanhã de noite, às oito horas, na rua... não... atrás da Igreja de santa Cecília. Mas que ela vá sozinha, hein? Sem você. O barbeirinho também pode ficar em casa."

O barbeirinho era o Ângelo, entregador da Casa Clark...

No outro dia, vai encontrar-se com ele a Carmela; leva junto a Bianca e ambas concordam em dar uma volta no Buick do rapaz.

No domingo seguinte, quando vai à casa da amiga, Bianca a encontra raspando a sobrancelha e anunciando que não vai dar voltas de carro com os dois. Querem estar sozinhos. Bianca chama Carmela de vaca...

Depois de deixar a amiga com o caixa d'óculos, despeitada, encontra uma amiga do bairro e conta tudo sobre Carmela e o rapaz rico. Espantada, a amiga pergunta pelo Ângelo. E recebe a resposta inusitada:

"- O Ângelo/ O outro é outra coisa. É pra casar."

Comentário: Chamamos a atenção para uma tradição na “paquera" daqueles tempos: a moça feia seguia sempre na carona da bonita, mas ficava para trás (como no começo do conto) quando a outra ia falar com o rapaz, e era deixada de lado, logo que o namoro estava garantido. Nota-se também a coloquialidade, característica do Modernismo, permitindo registrar a linguagem viva das ruas.

Alcântara Machado revela, de maneira concisa, sugestiva, a psicologia da mulher nesses novos tempos. O amor único, romântico, não é valor fundamental, por isso, Carmela mantém um namorado para casar e outro para divertir-se, mas sem compromisso.

Tiro de guerra nº 35 - Foi no grupo escolar da Barra Funda que o Aristodemo Guggiani aprendeu a roubar no jogo de gude e a amar o Brasil. Cantava o Hino Nacional com voz bem entoada e , berrando, puxava o coro. Quando a campanhai tocava, o pessoal da classe "desembestava pela Rua Albuquerque Lins vaiando o seu Serafim."

Quando saiu do Grupo escolar, já fumando cigarros Bentevi, foi trabalhar na oficina de um cunhado e entrou para o Juvenil Flor de Prata F.C. como reserva do time, mas foi expulso por falta de pagamento das mensalidades. Daí para a frente, uma série de amores , sovas e acontecimentos corriqueiros: quase morreu afogado no rio Tietê. No dia em que Tina, a namorado de um amigo, casou à força, na polícia, com um chofer de praça, Aristodemo fez 20 anos.

Brigou com o cunhado, arrumou emprego como cobrador na linha Praça do Patriarca-Lapa, na Companhia Autoviação Gabrielle D'Annunzio. Para isso, usava farda amarela e polainas vermelhas.

E arranjou uma pequena. Ela vinha à janela para vê-lo passar e o motorista, o Evaristo, por camaradagem tocava a buzina quando passava pela casa da pequena.

Mas teve que se afastar dela quando foi convocado para o serviço militar do Tiro-de-guerra. O sargento cearense, Aristóteles Camarão de Medeiros, dava as ordens e "quando falava em honra da farda, deveres do soldado e grandeza da Pátria arrebatava qualquer um.

Aristodemo só de ouvi-lo ficou brasileiro jacobino. Aristóteles escolheu-o para seu ajudante ­de-ordens. Uma espécie de.

- José conhece o hino nacional, criatura?

- Puxa, se conheço, seu sargento!

- Então você não esquece, não? Traz amanhã umas cópias dele para o pessoal ensaiar para o Sete de Setembro? Abom."

Aristodemo pediu folga no serviço, ensaio com aquele bando de soldados semi-analfabetos, que erravam o tempo todo. De repente, com a presença do sargento e tudo, houve um tumulto grande: era Aristodemo que brigava a socos com o alemãozinho que tinha debochado do hino. Confessou depois ao sargento que batera na cara do alemãozinho e que xingara demais a mãe dele.

Resultado: o alemãozinho foi desligado das fileiras do Exército, Aristodemo suspenso por um dia. Além do que, por conselho do sargento, ainda mudou de agência de ônibus: foi trabalhar na Rui Barbosa...

Comentário: É comum nas narrativas de Alcântara Machado a incorporação de gêneros não literários como o cartão de propaganda, o bilhete ou carta. Nesse conto, ele insere a "ordem do dia", absolutamente integrada como sempre faz também com os outros casos. A ficção de Alcântara Machado, com tais inserções, não só incorpora técnicas das vanguardas européias, como objetiva fazer o registro do viver urbano paulista no início do século XX.

Amor e sangue - A alma de Nicolino estava negra, embora o céu estivesse azul, todo azul. A impressão que teve foi de que a rua é que andava, não ele.

Veja como Alcântara Machado produz momentos extremamente poéticos na prosa: "As bananas na porta da Quitanda Trípoli italiana eram de ouro por causa do sol." Por que será que a alma dele andava negra assim?

Narrativa em terceira pessoa, Amor e sangue conta a história de Nicolino Fior D'Amore , insatisfeito , infeliz. Adora futebol, é bom jogador, mas a Grazia tira dele o juízo: "A desgraçada já havia passado."

Nicolino trabalha no "Ao barbeiro Submarino", ouve as conversas naquele dia, mas nada diz. Comentam muito sobre o crime do dia anterior: um rapaz havia matado uma moça por ciúmes, privação dos sentidos... Nicolino nem escutava mais.

O ciúme corroia-o por dentro. Quando a fábrica apitou, foi ao encontro dela, jurando que se mataria se ela não falasse mais com ele:

"- Não faça mais assim pra mim, Grazia. Deixa que eu vá com você. Estou ficando louco, Grazia. Escuta. Olha, Grazia! Grazia! Se você não falar mais comigo eu me mato mesmo. Escuta. Fala alguma coisa, por favor."

Mas ela não quis falar mesmo com ele.

Na saída da fábrica, Nicolino resolveu se vingar, apunhalou Grazia. E, quando foi preso, declarou:

"Eu matei porque estava louco, seu delegado!

Todos os jornais registraram essa frase que foi dita chorando.

Eu estava louco,

Seu delegado!

Matei por isso, BIS

Sou um esgraçado!

O estribilho do Assassino por Amor (Canção da atualidade para ser cantada com a música do "Fubá", letra de Spartaco Novais Panini) causou furor na zona."

Comentário: Pela forma como a narrativa está estruturada, embora o narrador não diga, deixando em aberto, é fácil o leitor perceber que o ato da personagem foi sugerido pela notícia de jornal comentada por Temístocles.

A Sociedade - A esposa do conselheiro José Bonifácio de Matos e Arruda não tolera sequer imaginar que a filha Teresa Rita venha a se casar com um “filho carcamano”

Mesmo assim, o rapaz, Adriano Melli, ronda a sua janela, passa buzinando no seu Lancia e cumprimentando com seu chapéu Borsalino. A mãe, atenta, manda-a entrar.

Os pais não puderam ir ao baile graças a um furúnculo no pescoço do conselheiro e com isso Teresa e Adriano conseguem se ver. Neste encontro, o jovem anuncia seu pai quer fazer negócio com o pai da moça.

A mãe, precavida, já deixa avisado: “Olhe aqui, Bonifácio: se esse carcamano vem pedir a mão de Teresa para o filho você aponde o olho da rua para ele, compreendeu?”

Mas o negócio era outro. O senhor Salvatore Melli vinha propor sociedade em um negócio no qual o conselheiro entrava com uns terrenos e ele com o capital. No meio da conversa, Salvatore avisa que seu filho será o gerente da sociedade.

Consultando a mulher, o conselheiro obteve a seguinte resposta: “Faça como quiser, Bonifácio...”. E ele resolveu aceitar.

Seis meses depois vem a outra proposta: o casamento dos filhos.

No chá de noivado, o senhor Melli recordou na frente de todos o tempo que vendia cebolas, batatas, Olio di Lucca e bacalhau para a mãe de Teresa quase sempre fiado e até sem caderneta.

Comentário: É importantíssimo observar, nesse conto, como o autor fragmenta o discurso em pedaços ao modo de azulejos que formam um mosaico. Veja na descrição do baile, a canção do negro da orquestra é recortada e, entre seus versos, são inseridos os fragmentos que descrevem cenas do salão, enquanto outros fragmentos mostram a disposição da mãe contra o namoro da filha com o filho do italiano. É louvável o modo inteligente como, no final, se justifica o título em duas possíveis interpretações: denotativa, com o paulista unindo-se ao italiano para o negócio do terreno; conotativa, com o casamento dos filhos, associando-se assim o paulista de tradição e o imigrante.

Lisetta - Assim que entrou no bonde com sua mãe, Lisetta viu logo o urso de pelúcia no colo da menina de pulseira de ouro e meias de seda. Quando a menina rica percebeu o encanto de Lisetta passou a exibir-se com o urso, deixando Lisetta ainda mais deslumbrada. Dora Mariana, a mãe, pedia à menina que ficasse quieta, mas Lisetta agora queria pegar o urso um pouquinho. A mãe da menina rica olhou, com ar de superioridade, fez um carinho no bichinho e se olhou no espelho. E o escândalo continuava.

Quando a família rica desceu, a mãe, já em frente ao seu palacete estilo empreiteiro português, voltou-se e agitou o bichinho no ar, provocando a menina.

Já em casa, Lisetta levou uma surra histórica. A mãe só parou quando Hugo, irmão da menina, chegou da oficina e a defendeu.

Mais tarde, Hugo deu à Lisetta um urso “pequerruncho e de lata”. Pasqualino, outro irmão, logo quis pegá-lo. Mas Lisetta correu para o quarto e “fechou-se por dentro”.

Comentário: Cinetograficamente, logo na primeira frase do conto, o narrador revela a condição social por um close em partes que revelam o todo: a pulseira de ouro e as meias de seda são índices da condição econômica superior da menina do urso. Nome de lojas e de produtos fazem parte da linguagem de Alcântara Machado, mas, ao mesmo tempo, tornam a obra datada demais e de leitura difícil aos leitores de hoje. Apesar do autor ter avisado no "artigo de fundo" que não aprofundaria nada, que não tomaria posição política, não podemos deixar de perceber que, tanto aqui como em outros contos, ele se contradiz ao focalizar com destaque a criança marginalizada pelo adulto, pela cidade e pela condição econômica, sendo levada ao sofrimento e à desilusão muito cedo.

Corinthians (2) x Palestra (1) - A partida estava vibrante no estádio do Parque Antártica. Miquelina, ao lado de sua amiga Iolanda não consegue se conformar quando o Corinthians faz o gol.

Sua esperança para garantir o Palestra agora era o Rocco. Gostava dele. Antes namorava o Biagio, jogador do  Corinthians. Quando terminou o namoro, ela parou de freqüentar os bailes dominicais da Sociedade Beneficente e Recreativa do Bexiga, onde todo mundo sabia da história deles. “E passou a torcer para o Palestra. E começou a namorar o Rocco.”

Matias, jogado do Palestra, empata o jogo. Miquelina delira.

No intervalo, Miquelina manda pelo irmão um recado ao Rocco, dizendo para que ele “quebrasse” o Biagio. Quando Biagio estava parar marcar um gol, Rocco o derruba dentro da área: o juiz marca pênalti. O próprio Biagio bate e faz mais um gol para o  Corinthians. O jogo acaba.

Na saída, Miquelina “murchou dentro de sua tristeza”, “nem sentia os empurrões”, “não sentia nada”, “não vivia”.

No bonde, de volta para casa, corintianos faziam a festa. Um torcedor do Palestra reclama que a culpa foi “daquela besta do Rocco”.

Mais tarde Iolanda se surpreende quando Miquelina resolve acompanhá-la ao baile da Sociedade.

Comentário: O narrador procura destacar o objeto da narração e não a si mesmo (como costumam fazer os narradores criados por Machado de Assis), vai descrevendo e narrando uma partida de futebol a que assiste Miquelina. Ela torce pelo Palestra. Mas, antes, namorara o Bagio, do Corinthians. Rompeu com ele, porém, e passou a namorar o Rocco e a torcer para o Palestra.

Nota biográfica do novo deputado - O coronel J. Peixoto de Faria fica desnorteado quando recebe a carta do administrador da fazenda Santa Inácia dizendo, entre outras coisas, que o seu compadre, João Intaliano, morreu. O órfão e afilhado do coronel, Gennarinho, ficou na casa do administrador, que agora pede uma orientação. O coronel Juca e Dona Nequinha, sua esposa, deixam para responder a carta no dia seguinte.

Gennarinho, nove anos, é trazido pelo filho mais velho do administrador. Vem “com o nariz escorrendo. Todo chibante.” Logo Gennarinho já é tratado com um filho pelo casal.

Um dia, o coronel decide traduzir o nome do menino. “Gennarinho não é nome de gente”. E passou a chamá-lo de Januário.

Discutindo sobre o futuro do garoto, os pais adotivos resolvem colocá-lo num colégio de padres. No primeiro dia de aula, o coronel, todo comovido, acompanha Januário e o apresenta ao reitor. D. Estanislau pergunta seu nome. O menino responde dizendo apenas o primeiro nome. O reitor insiste: Januário de quê? O menino responde, com os olhos fixos no coronel: Januário Peixoto de Faria.

Seguindo para São Paulo, o coronel já pensa em fazer testamento.

Comentário: Mais uma vez temos o italiano sendo assimilado pela família paulista tradicional. O menino, que parecia destinado a uma vida pobre e triste, ao ter a desgraça de ficar órfão, como que decidiu seu futuro ao captar a simpatia de seu padrinho, que o adota e destina seu amor e seus bens. O menino do relato é o deputado do título. É como se o conto fosse o esboço para a biografia de um homem recentemente eleito para deputado.

O monstro de rodas - As pessoas da sala discutiam as providências a serem tomadas para o enterro de uma criança. Dona Nunzia, a mãe, chorava desesperada até que foi levada para dentro pelo marido e pelo irmão. Uma negra rezava.

Na sala de jantar, alguns homens discutiam sobre qual seria a repercussão no Fanfulla, jornal da comunidade italiana. Pepino acha que a notícia irá atacar o “almofadinha”. Tibúrcio, porém, sabe que “filho de rico manda nesta terra que nem a Light. Pode matar sem medo.”

Durante o cortejo, outros interesses aparecem: o bate-papo dos rapazes (“A gente vai contando os trouxas que tiram o chapéu até a gente chegar no Araçá. Mais de cinqüenta você ganha. Menos, eu.”), a vaidade das mulheres (“Deixa eu carregar agora, Josefina?” “Puxa, que fiteira! Só porque a gente está chegando na Avenida Angélica. Que mania de se mostrar que você tem!”), politicagens (“Tibúrcio já havia arranjado três votos para as próximas eleições municipais”)...

Na volta para casa, Aída encontra dona Nunzia olhando a foto da menina morta publicada na Gazeta. O pai tinha ido conversar com o advogado.

Comentário: Perfeita crônica do comportamento popular, registro vivo e dinâmico de um enterro, que simultaneamente é um retrato crítico dos adultos indiferentes à desgraça da criança.

Armazém Progresso de São Paulo - O armazém do Natale era famoso por um anúncio em que dizia ter artigos de todas as qualidades. “Dá-se um conto de réis a quem provar o contrário”. Zezinho, o filho do doutor da esquina, sempre bulia com seu Natale, pedindo, por exemplo, “pneumáticos balão”. Quando o malandro cobrava seu um conto de réis, Natale respondia: “Você não vê, Zezinho, que isso é só para tapear trouxas?”. E anotava na conta do pai os cigarros que o rapaz pedia com nome de outros.

Em frente ao armazém, a confeitaria Paiva Couceiro não agüentaria por muito mais tempo. E seu Natale, que tinha prazer em observar aquele espetáculo de decadência dia após dia, já havia calculado quanto ofereceria ao português no leilão da falência. Por hora, ele fazia a sua parte: pressionava o homem com uma dívida com ele, uma letra que estava para vencer.

Dona Bianca o chama. Ouvira numa conversa do José Espiridão, o mulato da Comissão do Abastecimento, que a crise viria e os preços, inclusive o da cebola, produto encalhado na confeitaria, disparariam. Se não desse um jeito no português agora, nunca mais. Depois de confirmar o assunto com o mulato e pedir sua colaboração ficando quieto, seu Natale consegue “arranjar” o negócio. À noite, dona Bianca vai dormir se vendo no palacete mais caro da Avenida Paulista.

Nacionalidade - O barbeiro Tranquillo Zampinetti lia entusiasmado as notícias de guerra no jornal italiano Fanfulla. Chegava até a brandir a navalha como uma espada assustando os fregueses. Mas tinha um desgosto “patriótico e doméstico”: os filhos Lorenzo e Bruno não queriam falar italiano.

Depois do jantar, Tranquillo colocava a cadeira na calçada e ficava com a mulher e alguns amigos como o quitandeiro Carlino Pantaleoni, que só falava da Itália. Tranquillo ficava quieto mais depois sonhava em voltar para a pátria.

Um dia, Ferrúcio, candidato do governo a terceiro juiz de paz, veio pedir votos. Tranquillo, que nem votava, acabou sendo convencido pelo compatriota e gostou tanto que com o tempo andava até pedindo votos.

A guerra européia encontrou Tranquillo bem estabelecido, influente e envolvido na política; Lorenzo, noivo e também participando da política da região; e Bruno estudando, além de ser vice-presidente da Associação Atlética Ping-Pong. Tranquillo ainda se agitou com a guerra. Mas, com o descaso da família, logo foi se desinteressando.

O progresso de Tranquillo continuava e agora ele comentava mais as questões políticas do Brasil que as da Itália.

Quando Bruno se forma advogado pela faculdade de Direito de São Paulo, o pai chora, a mãe é trazida pelo neto, filho de Lorenzo, para vê-lo e todos se abraçam emocionados. E o primeiro serviço de Bruno foi requerer a naturalização de Tranquillo Zampinetti.