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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

sábado, 5 de outubro de 2013

"Macunaíma" - Filme completo


Para fazer download da obra:    http://download.baixatudo.globo.com/docs/Macunaima.pdf

MACUNAÍMA E A FORMAÇÃO DE UMA CULTURA BRASILEIRA
Fábio Della Paschoa Rodrigues
“A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. (...) Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. (...) Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.”
(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)
INTRODUÇÃO
O movimento modernista da década de 20 ambicionava tornar o Brasil uma nação com forma própria, conquistando nossa individualidade cultural e um lugar no “concerto das nações”, como dizia Mário de Andrade. Nessa tarefa, o autor modernista, baseando-se em certas teorias históricas e filosóficas, empenhou-se em produzir um trabalho que afirmasse a entidade nacional e assim criou o seu Macunaíma.
Neste trabalho, discutiremos questões nacionais levantadas por Macunaíma e  as influências e analogias entre a obra de Mário de Andrade e algumas das grandes teorias históricas, particularmente as de Herder, Spengler e Keyserling. Além disso, transportaremos as imagens macunaímicas para nossa realidade atual “globalizada”, fazendo um pequeno paralelo entre Macunaíma e o Brasil dos anos 90 do século XX.
AS INTENÇÕES DE MACUNAÍMA
Como o próprio Mário declarou, ele teve muitas intenções ao escrever Macunaíma, tratando de diversos problemas brasileiros: a falta de definição de um caráter nacional, a cultura submissa e dividida do Brasil, o descaso para com as nossas tradições, a importação de modelos socioculturais e econômicos, a discriminação lingüística etc. Mas a principal preocupação de Mário de Andrade foi buscar uma identidade cultural brasileira. O Brasil na época (e também hoje) não tinha “competência” para desenvolver uma cultura autônoma e toma emprestado modelos europeus, que não se adaptam ao nosso clima quente. A nossa cultura, então, deveria ser distinta das outras e possuir, por outro lado, uma totalidade racial; deveria provir das raízes que aqui haviam, das culturas populares existentes nos recantos do país. O Brasil, como entidade cultural, seria construído pela mistura de todas essas culturas (orais) de cada região brasileira. É justamente o que o escritor faz em Macunaíma: compõe a sua rapsódia reunindo lendas, folclores, crendices, costumes, comidas, falares, bichos e plantas de todas as regiões, não se referindo a nenhuma delas, misturando inclusive as diversas manifestações culturais e religiosas, dando assim um aspecto de unidade nacional, que não condiz com a realidade dividida de nossa cultura. Referindo-se a essa “desgeografização”, Mário de Andrade anota num de seus prefácios inéditos:
“Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim desregionalizava o mais possível a criação ao mesmo tempo que conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea = um conceito étnico nacional e geográfico.”
Comentando esse esforço de juntar os elementos constitutivos do ser nacional, Eduardo Jardim de Moraes (In: Berriel, 1990)  nota que:
“Na composição de Macunaíma e em seus escritos críticos da época nota-se o cuidado rigoroso de efetuar o levantamento do material que torna possível traçar o perfil do Brasil. Era intenção de Mário de Andrade, em sua perspectiva analítica, ao justapor os variados elementos culturais presentes na esfera nacional, chegar à definição de um elemento comum que qualificasse todos como pertencentes ao mesmo patrimônio cultural.”
Para Mário de Andrade, a modernização brasileira, isto é, a conquista de uma identidade cultural só seria possível se tomássemos consciência de nossas tradições. Em entrevista concedida em 1925, o escritor afirma que “ toda tentativa de modernização implica a passadização da coisa que a gente quer modernizar”. Vai mais além: “nós só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um contingente original e nacional de cultura”. Macunaíma é, portanto, uma tentativa de modernizar o Brasil através do passado, de nossas tradições; é também a tentativa de fundar a raça brasileira, estreitamente ligada ao seu ambiente geográfico, ao seu clima.
Todas essas intenções macunaímicas tomam por base conceitos de raça e cultura construídos pela filosofia européia, particularmente a alemã. Ele como que tomou emprestado certos conceitos, mas adaptando-os ao nosso clima quente. Passemos então, a analisar os pontos de convergência entre sua obra e as teorias históricas.
MACUNAÍMA E AS TEORIAS HISTÓRICAS
Comecemos analisando as relações entre a obra andradiana e o pensador alemão Johann Gottfried Herder (1744-1803). Para Herder, a característica mais importante da história é a pluralidade e a individualidade das nações, justamente o que buscavam nossos modernistas.
Apesar de não haver material comprovando que Mário de Andrade leu Herder – conforme aponta C. E. Berriel (1987), as idéias deste pensador são claramente notadas na obra do escritor (que podem ter vindo através de Spengler ou do Romantismo brasileiro, ambos influenciados por Herder). O filósofo acreditava que “a literatura de uma nação deve ser verdadeira para com as tradições e o caráter íntimo da mesma nação, e a sua atitude para com a natureza” (Gardiner, 1995). Ora, Macunaíma é esta literatura: busca resgatar as tradições folclóricas brasileiras e afirmar um caráter nacional (que, para Mário, supostamente não há). O pensamento herdiano enfatiza os conceitos de caráter nacional e de meio ambiente, em que há uma unidade entre geografia, cultura e raça. Lendo atentamente Macunaíma, percebemos que Mário de Andrade utiliza todos esses conceitos em seu  livro: nosso herói adquire características adequadas ao meio em que vive, ao seu espaço geográfico (que depois abandonará como sabemos), ele é a tentativa de fundar a raça brasileira a partir das “três raças tristes” que dão origem ao brasileiro e, mais ainda, é a possibilidade da criação de uma cultura nacional autêntica.
O escritor modernista partilhava da mesma idéia de que a paisagem está dentro do ser humano, como experiência coletiva ou individual de estar em um determinado lugar, a natureza captada pelos sentidos. Na concepção de Herder, o homem se origina a partir e dentro de uma raça, que está intrinsecamente ligada à paisagem, como ele ilustra em uma metáfora:
“Tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades atuantes e o seu sabor, assim o antigo caráter dos povos proveio de traços raciais, do clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das ações peculiares a cada um desses povos.”
Neste sentido, Mário traduz literariamente a filosofia de Herder. Ele acreditava que deveríamos construir uma cultura, em sentido amplo, adaptada ao nosso clima, à nossa paisagem. Em resposta a um questionário da Editora Macaulay, em 1933, Mário declarou: “Tanto o meu físico como as minhas disposições de espírito exigem as terras do Equador. Meu desejo é ir viver longe da civilização, na beira de algum rio pequeno da Amazônia...” Ele acreditava que a preguiça era uma necessidade para os povos de clima quente como o Brasil, já que o “trabalho semanal e de tantas horas diárias” era coisa de civilizações cristãs de clima frio.
Mário de Andrade problematiza em Macunaíma as idéias de Herder  segundo as quais o destino de um povo “depende primordialmente do tempo e do lugar em que nasce, das partes que o compõem e das circunstâncias exteriores que o rodearam”. Para a formação da entidade nacional é necessário superar todos esses obstáculos que se impõem diante do herói: primeiramente ele não tem caráter, não é ligado ao seu meio geográfico (que, inclusive, renega ao final do livro), as partes (raças) que o compõem são conflitantes com a opressão do componente europeu, o tempo em que o Brasil vive passa por um período de transição, início da industrialização nacional. Verificamos vários outros obstáculos que nosso herói encontra e que tem relação com a teoria herdiana. Herder acreditava que os povos incultos adquirem conhecimentos pela prática ou pelo intercâmbio com outros, mas Macunaíma (o Brasil, na verdade) só importa conhecimento, não troca, ou quando o faz troca “borboletas” por “idéias”, isto é troca o “exótico” pelo “civilizado”. Ainda para ele, os povos permanecem ligados entre si, influenciando uns aos outros, de acordo com a relação de maior ou menor poder, em que o país submisso é subjugado pelo opressor; o Brasil, nessa relação é quase totalmente submetido à cultura cristã européia e não tem forças para influenciar esse continente. Enfim, o Brasil só se consolidaria como entidade cultural se crescesse das próprias raízes, como preconizava o filósofo alemão. Macunaíma, ao invés disso, abandona suas raízes e se rende ao clima frio europeu, desprezando suas tradições e renegando sua paisagem tropical.
Para Herder a história de um povo é orgânica (como também para Spengler, como veremos mais adiante): “uma nação, tal qual o homem, crescerá e morrerá, inevitavelmente”. Mário de Andrade descreve literariamente a nossa história orgânica, desde o nascimento da possível cultura brasileira até seu quase desenvolvimento e enfim sua morte, ou seja, a vida de Macunaíma.
A influência de Oswald Spengler (1880-1936), outro pensador alemão, na obra de Mário de Andrade é patente e reconhecida. Mário leu e se inspirou na obra “A decadência do Ocidente” e em diversas passagens de Macunaíma reconhecemos imagens spenglerianas.
Segundo P. Gardiner (1995), Spengler dá preferência “ao instinto, em oposição ao entendimento, à vida no campo em oposição à vda na cidade, a fé e o respeito pela tradição em oposição ao cálculo racional e ao interesse próprio, à intuição e à imaginação em oposição à análise e ao método científico”. Ainda para Spengler, “uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em meio do informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, à qual se apega, qual planta”. Isto é, com algumas modificações, a descrição de Macunaíma.
Vejamos: Macunaíma é essa alma adormecida que nasce do ilimitado (o “silêncio tão grande”) no “fundo do mato virgem”, portanto, muito longe da cidade; ele usa sua mágica (intuição) para agir e prever as coisas. Mas nosso herói ficará para sempre “carinha enjoativa de piá”, pois enganara as tradições folclóricas, que ora defende ora se afasta delas (defende o Pai do Mutum  mas foge de Capei); age sempre por interesse próprio, não tem caráter; e não se apega “qual planta” à sua paisagem.
Percebemos no livro as diversas oposições levantadas por Spengler: destino x causalidade, cultura x civilização, história x natureza, crescimento e vida xdecadência e morte. Aliás, a oposição principal de Macunaíma não é a do herói com o gigante Venceslau Pietro Pietra, mas sim a oposição entre a mata tropical e a cidade temperada, ou seja, a oposição entre cultura (tradição) e civilização, que é oposição básica de Spengler.
No percurso do “herói de nossa gente”, Mário tenta construir a cultura brasileira, segundo os conceitos de Spengler, para quem “as massas de seres humanos fluem numa corrente sem obstáculos, da qual surge de vez em quando a Kultur autoconsciente”; porém, a falta de caráter do herói não possibilita o surgimento da cultura brasileira. Além disso, o herói de nossa gente encontra obstáculos na sua vida, quando está se desenvolvendo: ele se depara com o roubo da muiraquitã (cultura brasileira) pelo gigante Piaimã – o Brasil ao tentar construir sua unidade cultural encontra a Europa no meio do percurso.
Assim como para Herder, Spengler acredita que a força da cultura depende das raízes, da adaptação à terra, à afinidade com a natureza e a consolidação da raça. Para ele, “a História Mundial é a história da ascensão e queda de nações e raças”. E a raça é uma questão de um “sentimento comum” que une gerações sucessivas num todo. Spengler, como já dito, construiu uma concepção orgânica de história e foi além de Herder, supostamente prevendo o destino de todas as civilizações. Outro ponto de concordância entre os dois filósofos era a afirmação de que cada cultura tem o seu caráter específico ou “alma”. Na visão spengleriana “cada cultura tem as suas possibilidades de expressão, que surgem, amadurecem, decaem e não voltam a se repetir”. Já vimos que Mário utiliza essas idéias em seu livro, contando a vida do herói brasileiro, na verdade a vida da cultura brasileira.
Mário também crê na concepção spengleriana de que a indústria (o estágio mais avançado da civilização) é o grande inimigo da Natureza. Ela destrói as nações, as culturas nacionais. A máquina altera a relação do homem com a Natureza, interpondo-se entre eles. Macunaíma se vende às máquinas, quase se tornando uma, e assim frustra-se a tentativa de se estabelecer uma cultura nacional. O herói, como não tem caráter, é facilmente comprado pelas atrações da máquina, esquece a natureza, renega as tradições. Na cidade não há espaço para o sagrado, pois “isso de deuses era gorda mentira antiga” como diz uma “filha da mandioca” para o herói. A máquina não era deus e ninguém podia brincar com ela , pois ela matava. Ao refletir sobre máquinas e homens, Macunaíma chega à conclusão de que “os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens”. Nesse momento, nosso herói começa a maquinar, ele absorve a civilização pois não tem caráter.
Na cidade não há povo, mas uma massa. A cidade-máquina devora os homens e Macunaíma também é devorado por São Paulo. Ele não consegue mais viver e, outro solo que não esse, petrificado; a mata já lhe é estranha e  monótona, ele não compreende mais o silêncio que o originou. Assim, Macunaíma, nas palavras de Spengler, “leva a cidade constantemente comsigo (...) perdeu o campo em seu interior e nunca mais o encontrará no mundo de fora”.
A gênese das culturas, na teoria spengleriana, é representada pelo mundo rural, o urbano é a corporificação da decadência das civilizações; a civilização “é um epílogo, a morte seguindo-se à vida, a rigidez seguindo-se à expansão (...) o mundo-cidade petrificante seguindo-se à mãe-terra.”. Macunaíma, rendendo-se à civilização, entra em decadência, petrifica-se e vê São Paulo se petrificar. Mário constrói uma imagem magnífica: para ele, São Paulo deveria se preocupar com o exercício da preguiça, mas como não tem caráter, ela se transforma em um imenso bicho preguiça de pedra.
Mas a cultura brasileira não morre de todo. Mário, de certa forma, acredita no Brasil e deixa, no final do livro, a possibilidade de construirmos a nossa cultura: Macunaíma, na verdade, não morre, sobe para o campo vasto do céu, vira tradição, que poderá ser resgatada e transmitida (como aliás, é transmitida ao próprio Mário noEpílogo).
Essa visão otimista com relação à formação de uma nação brasileira, Mário deve a Keyserling, único pensador que teve sua influência creditada explicitamente, num dos prefácios inéditos.
Na concepção de Keyserling, o homem é uma entidade real que se manifesta através de criações culturais. A teoria dele, assim como a de Herder, afirma o particularismo das culturas e ao mesmo tempo seu lugar universal. O conceito de cultura keyserlinguiano está relacionado a um passado vivo e a cultura “é a forma da vida, como imediata expressão do espírito (...) é obrigação com relação a um passado vivo, (...) é exclusiva e, portanto, estritamente limitada no exterior; é essencialmente unitária, pelo que cada coisa particular nela pressupõe e alude à totalidade” (que, enfatizamos, é o conceito utilizado pelos modernistas de 20). Mas, diferentemente de Spengler, para ele “todas as culturas tradicionais do planeta estão em decadência”, não só a civilização ocidental. Mas se Keyserling considera que todas as culturas tradicionais estão em decadência, porque centradas “no irracional, no  impulsivo” – que é intransferível e, assim, não dando continuidade à cultura, por outro lado, a cultura pode ser perpetuada através de tradições vivas.
Mário compartilhava do otimismo de Keyserling, que acreditava que a tradição viva era a via de transmissão da cultura, a despeito da decadência inevitável das civilizações. Por isso Macunaíma, apesar de ter perdido a muiraquitã (a cultura brasileira) vira constelação (tradição). Ou seja, agora ele se transformou em instrumento de transmissão do que poderia vir a ser a entidade brasileira. O projeto andradiano, portanto, pode ser resgatado pelas gerações futuras.
Para Keyserling uma nova cultura se desenvolve “quando da mescla se origina o equivalente a uma nova raça definida”. Esse postulado permite Mário de Andrade conceber a gênese da Raça brasileira, criando seu herói a partir da mescla das três raças tristes (índio, branco e negro). Nosso herói, infelizmente como sabemos, deixa que sua porção branca oprima as outras e se vende à civilização decadente, não definindo uma nova Raça. Cabe ressaltar aqui que a porção branca de Macunaíma – vinda dos portugueses – já era mestiça e não se constituía como Raça; citando Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil:  os portugueses apresentavam “ausência completa, ou praticamente completa de qualquer orgulho de raça (...) Essa modalidade de seu caráter explica-se muito pelo fato de serem os portugueses um povo de mestiços”.
Mário de Andrade encontra outro ponto de apoio em Keyserling, com relação à  aversão à industrialização nascente, ao capitalismo verdadeiro, como nota C.Berriel (1987):
“Keyserling oferece uma alternativa “não-burguesa” de leitura da realidade histórica, ao rejeitar a economia e a materialidade como formas explicativas. Assim, a crise da sociedade contemporânea pôde ser vista, tanto por Spengler e Keyserling, como por Mário de Andrade, como uma crise da cultura pura e simplesmente”.
Todas essas postulações keyserlinguianas deram base para que Mário criasse seu “poema fundador” da raça brasileira ligada à paisagem tropical, e, por conseqüência, desenvolver a cultura brasileira. Ao pessimismo de Spengler, Mário prefere a possibilidade keyserlinguiana de manter a tradição brasileira viva, na esperança de que ela venha a se despertar novamente; por isso mesmo é que escuta do papagaio a vida do herói de nossa gente e nos transmite.
AS IMAGENS MACUNAÍMICAS E O BRASIL ATUAL
À luz das idéias e conceitos expressos em Macunaíma, transportaremos algumas  de suas imagens para o Brasil da era globalizada. A intenção aqui não é aplicar uma teoria histórica (ou sua releitura literária) à atualidade brasileira, nem fazer uma crítica aprofundada sobre a cultura brasileira nos dias de hoje; para isso, seriam necessárias pesquisa e análise mais aprofundadas. A intenção é  mostrar pontos de contato entre obra de Mário de Andrade e nosso atual contexto cultural e econômico, é também mostrar que a tradição macunaímica se faz sentir em nossos dias, com as mesmas questões que preocupou os modernistas na década de 20.
A Globalização implica na anulação da identidade nacional dos povos. Ela supostamente unificaria todas as nações o que, na verdade, levaria à perda da identidade cultural de cada nação. Neste sentido, a nova caminha para um objetivo contrário ao das teorias de Herder, Keyserling e da proposta modernista, em que a cultura se afirma como nação pela sua particularidade. O mundo globalizado não admite tradições e particularidades, num momento em que a palavra de ordem é “comunicação”. Comunicação virtual, a informação em alta velocidade através da máquina computador. Uma tribo africana sem e-mail ou home page ficará obsoleta, entrará em decadência, muito mais rapidamente que as civilizações preconizadas por Spengler. A civilização conquistou de tal forma uma técnica apurada – as novas tecnologias, que aceleram desenfreadamente o desaparecimento da cultura tradicional, como dizia Keyserling.
A cultura brasileira, seduzida por essa Uiara, está cada vez mais enxertada de estrangeirismos, que passaram a ser considerados como agregados culturais que contribuiriam para o enriquecimento de nossa “cultura”. O povo (quer dizer, a massa) não se dá conta muitas vezes de que essas “contribuições” na verdade fazem parte de um processo de “lavagem cerebral” das nossas tradições, que a influência cultural e econômica continua sendo unilateral. Não há fluxo de troca entre Brasil e a nova civilização ocidental hegemônica, os Estados Unidos, por exemplo; exportamos “futebol” e importamos “tecnologia”. Cada vez mais nossa realidade é afetada pela bolsa de Nova Iorque, de Tóquio, de Hong Kong etc... Cada vez mais a nossa cultura se rende a enlatados norte-americanos, mexicanos, argentinos... pois a produção nacional (quer seja cultural, social, econômica) não tem valor.
O atual herói se vendeu muito mais facilmente à civilização que o Macunaíma. O novo herói de nossa gente é o Sr. Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (FHC) que, assim como Macunaíma, não tem caráter: lutou contra a ditadura militar mas entrega agora o país ao capital estrangeiro; diz estar ao lado do povo, mas no capítulo seguinte declara que os aposentados são vagabundos e  aprova um plano de previdência que prejudica os trabalhadores; diz defender os pobres para depois salvar bancos privados da falência, despendendo cifras milionárias e cobra mais impostos dos cidadãos. Ele esquece nossas “tradições” e vende nosso petróleo, nossa energia, nossas telecomunicações para os civilizados europeus e norte-americanos. Os gigantes Piaimãs ACM, Tio Sam, FMI querem devorar nosso herói que, para se salvar (entenda-se: salvar a si próprio, não a nação) se transforma em Superman ou Tio Patinhas usando sua “mágica”. A Uiara Globalização seduziu nosso herói por completo, sem a hesitação de Macunaíma.
Percebemos que há várias semelhanças entre as aventuras macunaímas e as aventuras de FHC. Talvez Mário de Andrade, Spengler e Keyserling tenham razão e a depender do novo herói, nosso quadro confirmará as teorias aqui comentadas, reiterando o que Sérgio Buarque de Holanda declarou em seu Raízes do Brasil: “somos uns desterrados em nossa terra”.
BIBLIOGRAFIA
ANDRADE, Mário de. Entrevistas e Depoimentos. Edição organizada por Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: T. A. Queiroz, 1983.
__________. Macunaímao herói sem nenhum caráter – Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978.
__________. O Turista Aprendiz. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983.
BERRIEL, Carlos Eduardo (org.). Mário de Andrade hoje. São Paulo: Ensaio, 1990.
________. Dimensões de MacunaímaFilosofia, Gênero e Época. Tese de Mestrado, UNICAMP, 1987.
GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995.
HERMAN, Arthur. A idéia de decadência na história ocidental. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999. Cap.7
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971.
LOPEZ, Telê Porto Ancona. Macunaímaa margem e o texto. São Paulo: Hucitec, Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, 1974.

                                                  http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/m00002.htm

sexta-feira, 8 de março de 2013

Realismo e Naturalismo

Marco inicial do Realismo: Memórias Póstumas de Brás Cubas

            
   O Livro Memórias Póstumas de Brás Cubas é uma das Obras primas de um dos maiores escritores mundiais, e que com muito orgulho é brasileiro, Machado de Assis. A partir do Vestibular de 2013 a Fuvest e Unicamp, bem como muitas outras instituições incluíram esse Romance em sua Lista de Leituras Obrigatórias, o que para os que apreciam literatura foi um presente!








                                                           O Cortiço -  filme completo

Análise do livro O cortiço


Análise da obra "O cortiço de Aluísio de Azevedo"
         Tendo como cenário uma habitação coletiva, o romance difundi as teses naturalistas, que explicam o comportamento dos personagens com base na influência do meio, da raça e do comportamento. O cortiço foi publicado em 1890, em meio à atividade febril de produção literária a que Aluísio se viu obrigado a profissionalizar-se como escritor.
           O romance tornou-se peça chave para o melhor entendimento do Brasil do século XIX. É um recorte sociológico, representando as relações entre o elemento português, que explora o Brasil em sua ânsia de enriquecimento, e o elemento brasileiro, apresentado como inferior e explorado pelo português. A obra tem influência do romance L’Assomoir, do escrito francês Émile Zola, que prescreve um rigor científico na representação da realidade. Seguindo o método naturalista (terias filosóficas como o determinismo e o evolucionismo) Aluísio faz uma crítica contundente e coerente da realidade corrompida combatendo a degradação causada pela mistura de raças.
         Na elaboração de O cortiço, Aluísio Azevedo seguiu a técnica de Zola. Visitou inúmeras habitações coletivas do Rio de janeiro interrogando lavadeiras, capoeiras, vendedores, cavouqueiros, observou-lhes a linguagem; escutou atento os ruídos coletivos dos cortiços; sentiu-lhes o cheiro, viu-lhes a promiscuidade e notou que as coletividades, apesar de divergirem, são ligadas por um estranho sentimento de classe, que as une, nos momentos mais críticos, quando são esquecidos os ódios e as divergências. Com toda essa “documentação”, Aluísio criou o enredo em torno de um problema social que se tornava mais grave, com a formação de grandes massas urbanas proletárias, constituídas em boa parte pelos operários dos primórdios da industrialização do país.
O NATURALISMO
            O Naturalismo surgiu como consequência do Realismo, porém procurava levar a literatura a se integrar no grande movimento da ciência para justificar os fatos cientificamente. Vale lembrar que o século XIX conheceu um desenvolvimento científico sem precedentes. A literatura realista procurava basear-se numa observação minuciosa  da realidade, retratava o homem e a sociedade a partir do ambiente, dos costumes, das atitudes, dos comportamentos. O naturalismo, além de observação minuciosa, fundamentava-se nas teorias científicas da época.
            No Naturalismo, o romance era visto como uma “experiência”, um “documento” em torno do comportamento individual e social. Os naturalistas eram deterministas, pois acreditavam que o comportamento do homem era determinado pela raça (o fator biológico, genético); pelo meio (o fator social) e pelo momento (o fator histórico). O romance valeria com uma experiência científica, se a realidade fosse observada com precisão e os fatores determinantes fossem equacionados com precisão.
          O romance naturalista preocupava-se com o coletivo, os escritores eram pessimistas em relação à natureza, ao homem e à sociedade. A idealização da natureza, do século XVIII (iluminismo) e do Romantismo, século XIX, é abandonada. Para os naturalistas o homem era visto, por natureza, roído por defeitos, por moléstias psíquicas e físicas.     
       Os naturalistas rejeitavam as idealizações e o subjetivismo dos românticos. Como realistas acreditavam que essas idealizações e esse subjetivismo eram uma péssima forma de engano e deseducação das pessoas. Assim,  afastavam –se do romantismo tanto nos métodos de composição (observação e ciência, ou pseudociência, são usados em lugar da fantasia), quanto nos temas tratados e no estilo utilizado. Os temas refletem a visão crítica e pessimista do movimento: no plano individual, a animalização do homem, visto em seu aspecto instintivo, em suas taras e aberrações, sobretudo sexuais; no plano coletivo, os aspectos decadentes e perversos da monstruosidade das elites.
       Quanto ao estilo, os naturalistas e os realistas em geral, procuravam representar a realidade diretamente, e não através da idealização, como símiles, comparações, metáforas. Estas últimas figuras tendem à idealização; por isso, os realistas preferem a metonímia e a sinédoque, figuras em que um objeto é substituído não por outro parecido, como na metáfora, mas por outro que tem relação real com ele, por achar próximo, no mesmo contexto. A diferença pode ser percebida se compararmos uma metáfora romântica, como “lábios de mel”, que Alencar usa para descrever a boca de Iracema, com uma sinédoque realista, como “ombros nus”, com que Tolstói indica mulheres de vestido decotado, com a substituição do todo (as mulheres) pela parte (os ombros).
          No Brasil, a obra mais significativa que se pode considerar naturalista é O cortiço, o melhor livro de Aluísio de Azevedo.
 NARRADOR
        A obra é narrada em terceira pessoa, sendo o narrador onisciente (que tem conhecimento de tudo), como propunha o movimento naturalista. O narrador tem poder total na estrutura do romance: entra nos pensamentos dos personagens, faz julgamentos e tenta comprovar, como se fosse um cientista, as influências do meio, da raça e do momento histórico,
        O foco da narração, a princípio, mantém uma aparência de imparcialidade, como se o narrador se apartasse, à semelhança de um deus, do mundo por ele criado. Mas isso é ilusório, porque o procedimento de representar a realidade de forma objetiva já configura uma posição ideologicamente tendenciosa.
TEMPO
        O tempo é trabalhado de maneira linear, com princípio, meio e desfecho da narrativa. A história se desenrola no Brasil do século XIX, sem precisão de datas. Há, no entanto, que ressaltar a relação do tempo com o desenvolvimento do cortiço e com o enriquecimento de João Romão.
ESPAÇO
       São dois os espaços explorados na obra. O primeiro é o cortiço, amontoado de casebres nada arranjados, onde os pobres vivem. Esse espaço representa a mistura de raças e a promiscuidade das classes baixas. Funciona como um organismo vivo, como foi visto. Junto ao cortiço estão a pedreira e a taverna do português João Romão.
Primeiro espaço

       Segundo espaço, que fica ao lado do cortiço, é o sobrado aristocratizante do comerciante Miranda e de sua família. O sobrado representa a burguesia ascendente do século XIX. Esses espaços fictícios são enquadrados no cenário do bairro de Botafogo, explorando a exuberante natureza local como meio determinante. Dessa maneira, o sol abrasador do litoral americano funciona como elemento corruptor do homem local.
Segundo espaço
PERSONAGENS
        Os personagens são psicologicamente superficiais, ou seja, há a primazia de tipos sociais. Os principais são:
·         João Romão – taverneiro português, dono da pedreira e do cortiço. Representa o capitalista explorador.
·         Bertoleza – quitandeira, escrava cafuza que mora com João Romão, para quem ele trabalha como uma máquina.
·         Miranda – comerciante português. Principal opositor de João Romão. Mora num sobrado aburguesado, ao lado do cortiço.
Jerônimo
·         Jerônimo – português “cavouqueiro”, trabalhador da pedreira de João Romão, representa a disciplina do trabalho.
Rita baiana
·         Rita Baiana – mulata sensual e provocante que promove os pagodes no cortiço. Representa a mulher brasileira.
·         Piedade – portuguesa que é casada com Jerônimo. Representa a mulher europeia.
·         Capoeira Firmo – mulato e companheiro que se envolve com Rita Baiana.
·         Arraia-miúda – representada por lavadeiras, caixeiros, trabalhadores da pedreira e o policial Alexandre.
ENREDO
     O livro narra inicialmente a saga de João Romão, ambicioso, rumo ao enriquecimento. Para acumular capital, ele explora os empregados e se utiliza de furtos para conseguir atingir seus objetivos. João Romão é o dono do cortiço, da taverna e da pedreira. Sua amante, Bertoleza, o ajuda de domingo a domingo, trabalhando sem descanso.
      Em oposição a João Romão, surgi a figura de Miranda, o comerciante bem estabelecido que cria uma disputa acirrada com o taverneiro por uma braça de terra que queria comprar para aumentar seu quintal. Não havendo consenso, há o rompimento provisório das relações de amizade entre os dois.
    Com inveja de Miranda, que possui condição social mais elevada, João Romão trabalha arduamente e passa por privações para enriquecer mais que seu opositor. Um fato, no entanto, muda a perspectiva do dono do cortiço: Miranda recebe o título de barão. João Romão entende que não basta ganhar dinheiro, é necessário também ostentar uma posição social reconhecida, frequentar ambientes requintados, adquirir roupas finas, ir ao teatro, ler romances, ou seja, participar ativamente da vida burguesa.
      No cortiço, paralelamente, estão os moradores de menor ambição financeira. Destacam-se Rita Baiana e Capoeira Firmo; Jerônimo e sua mulher Piedade;  Pombinha, moça franzina que se desencaminha por influência das más companhias; a Machona, lavadeira gritalhona, cujos filhos não se pareciam uns com os outros e outros.
      Um exemplo de como o romance procura demonstrar a má influencia do meio sobre o homem é o caso do português Jerônimo, que tem uma vida exemplar até cair nas graças da mulata Rita Baiana.     Opera-se uma transformação no português trabalhador, que muda todos os seus hábitos. No cortiço há festas com certa frequência, destacando-se nelas Rita Baiana como dançarina provocante e sensual, o que faz Jerônimo perder a cabeça. Firmo, enciumado, acaba brigando com Jerônimo e abre a barriga do rival com uma navalha e foge. Naquela mesma rua, outro cortiço se forma. Os moradores de João Romã o chamam de “Cabeça-de-gato, onde Firmo passara a morar.
      Jerônimo que havia sido internado em um hospital após a briga com Firmo; arma uma emboscada traiçoeira e o mata a pauladas, fugindo em seguido com Rita Baiana, abandonando a mulher.
      A relação entre o Miranda e João Romão melhora quando o comerciante recebe o título de barão e passa a ter superioridade sobre o oponente.  João Romão, após um incêndio em vários barracos do cortiço, reconstrói o cortiço, dando-lhe nova feição, e pretende realizar um objetivo que há tempos vinha alimentando: casar-se com uma mulher “de fina educação”, legitimamente. O cortiço todo muda perdendo o caráter desorganizado e miserável para se transforma na Vila João Romão.
     João Romão aproxima-se de Miranda por intermédio de Botelho, um velho que mora com a família Miranda, mediante o pagamento de vinte contos de réis e pede a mão da filha do comerciante em casamento. Há, no entanto um empecilho: Bertoleza. João Romão arranja um plano para livra-se dela: manda um aviso aos antigos proprietários da escrava, denunciando-lhe o paradeiro. Pouco tempo depois, surge a polícia na casa de João Romão para levar Bertoleza aos seus antigos senhores.    A escrava compreende o destino que lhe estava reservado, suicida-se, cortando o ventre com a mesma faca com que estava limpando o peixe para a refeição de João Romão.
Aspectos centrais
O cortiço é gerador de tudo e feito à imagem de seu proprietário, cresce,  desenvolve-se e se transforma com João Romão. Todas as existências se entrelaçam e repercutem uma nas outras.
  •  Crítica do capitalismo selvagem
O tema do romance é a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado João Romão, que aspira à riqueza, e Miranda, já rico, aspira à nobreza. Do outro lado “a gentalha”, caracterizada como um conjunto de animais, movido pelo instinto e pela fome.
  •     A redução das criaturas ao nível animal (zoomorfização), característica do Naturalismo revelando a influência das teorias da Biologia do século XIX (darwinismo) e o Determinismo (raça, meio, momento).
...depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.
Leandra... a ‘Machona’, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo.
Rita Baiana... uma cadela no cio.

  •   A força do sexo
      Em o Cortiço, o sexo é a força mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do sexo, típica do determinismo biológico e do naturalismo, conduz Aluisio a focalizar diversas formas de “patologia” sexual: “acanalhamento” das relações matrimoniais, adultério, prostituição, lesbianismo etc.
  •   Os tipos humanos

João Romão
      E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba sempre por fazer, ia vinha da pedreira para a venda, da venda às hortas e ao capinzal, sempre em mangas de camisa, tamancos, sem meias...
Albino
    Fechava a fila das primeiras lavadeiras, o Albino, um sujeito afeminado, fraco, cor de aspargo cozido e com um cabelinho castanho, deslavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até o pescocinho mole e fino.
Botelho
    Era um pobre-diabo caminhando para os setenta anos, antipático, cabelo branco, curto e duro como escova, barba e bigode do mesmo teor; muito macilento, com uns óculos redondos que lhe aumentavam o tamanho da pupila e davam-lhe à cara uma expressão de abutre... 
Podemos observar nestes trechos excelentes exemplos de descrição realista e objetiva.
  •   A situação da mulher
As mulheres são reduzidas a três condições: primeira, objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoleza e Piedade; segunda, de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; terceira, de sujeito, são mas que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.
Alegoria do Brasil
           Mais do que empregar os preceitos do Naturalismo, a obra mostra práticas recorrentes no Brasil do século XIX. Na situação de capitalismo incipiente. O explorador vivia muito próximo ao explorador, daí a estalagem de João Romão estar junto aos pobres moradores do cortiço. Ao lado, o burguês Miranda, de projeção social mais elevada que João Romão, vive em seu palacete com ares aristocráticos e teme o crescimento do cortiço. Por isso pode-se dizer que O Cortiço não é somente um romance naturalista, mas uma alegoria do Brasil.
       O autor naturalista tinha uma tese a sustentar sua história. A intenção era provar, por meio da obra literária, como o meio, a raça e a história determinam o homem e o levam à degenerescência.
        A obra está a serviço de um argumento. Aluísio se propõe a mostrar que a mistura de raças em um mesmo meio desemboca na promiscuidade sexual, moral e na completa degradação humana.     Além disso, o livro mostra, também, a imensa desigualdade social.

Este texto é uma adaptação da análise feita pelo professor Fernando Teixeira de Andrade do Curso e  Colégio Objetivo e do Guia do Estudante: Literatura, Vestibular, 2008.
 https://www.google.com.br/search?q=imagens+de+O+corti%C3%A7o&newwindow=1&client=firefox-a&hs=Tbo&rls=org.mozilla:pt-BR:official&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=OwsiUqzqC43C9QT5iIHoBQ&ved=0CDMQsAQ&biw=1088&bih=513

http://abfocortico.blogspot.com.br
http://lerantesdemorrer.wordpress.com/tag/o-cortico 
http://guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/cortico-analise-obra-aluisio-azevedo-700292.shtml



Realismo
Colaboração: Bartolomeu Amâncio da Silva (Prof. Bartô)

 

O Realismo teve seu início na França em 1857, quando Gustave Flaubert publicou sua obra Madame Bovary, em que sua principal personagem buscava um amor romântico, perfeito e impossível, mas a dura realidade, sem emoções, não permitia realizar suas pretensões, e ela acabou por se suicidar.



O Realismo se iniciou em Portugal com a Questão Coimbrã, polêmica literária entre Antero de Quental, Teófilo Braga e os jovens literatos que surgiram na década de 1860, e os representantes da geração anterior, entre os quais se destacava Castilho.

O ambiente social, na Europa de então, sofria os efeitos da consolidação da civilização burguesa, o surgimento do proletariado e de suas lutas, das ideias do liberalismo e democracia e suas inúmeras mudanças, o desenvolvimento das ciências naturais e teorias científicas. Foi um cenário de ênfase no aspecto material, com uma forte redução no espiritualismo e críticas severas à religião, apresentada como manifestação primitiva do ser humano. Assim, no Realismo a literatura torna-se menos uma distração e mais um meio de crítica e combate às instituições.

Assim, as características principais do Realismo incluíam a busca da realidade de vida, mostrada como realmente é, com os lados positivos e negativos; um pessimismo latente, onde as criaturas eram más e mal intencionadas, ao contrário do Romantismo, onde eram tratadas como bondosas; uso de temas de caráter grosseiro, para chocar os padrões morais do leitor; preocupação em relatar os fatos comuns do dia-a-dia, que no Romantismo eram preteridos pelo extraordinário, pelo invulgar; tudo descrito com minúcias, muitas vezes em demasia.

O Realismo não foi tanto uma escola literária como um sentimento novo, uma nova atitude espiritual em que couberam direções muito divergentes, que se alçou contra um idealismo sem ideias. A sua consequência mais vital e duradoura foi romper com o patriotismo provinciano dos ultrarromânticos, abrindo o espírito nacional a todas influências externas e ampliando a gama de escolha dos motivos literários.

Embora tenha conhecido na França a sua forma mais rigorosa, o Realismo é igualmente um fenômeno europeu.

Em Portugal, as semelhanças entre Realismo e Naturalismo eram muito fortes. O principal representante do Realismo português foi Eça de Queirós, com a publicação do conto Singularidades duma rapariga loira que, na opinião de Fialho de Almeida, foi a primeira narrativa realista escrita em português. Com o aparecimento de O crime do padre Amaro e de O primo Basílio, ambos de Eça de Queirós, onde Realismo e Naturalismo se confundem, a nova escola implantava-se definitivamente. Mas na década de 1890, o Realismo, cada vez mais confundido com o Naturalismo, já havia perdido muito de sua força.

Características

Objetivismo, impassibilidade, observação e análise. Busca de uma explicação lógica e cientificamente aceitável para os fatos e ações.

Sensorialismo. Impressões sensoriais nítidas e precisas. Predomínio da descrição objetiva. Narrativa lenta, devido ao acúmulo de pormenores. A ação e o enredo perdem a importância para a caracterização das personagens. Personagens esféricas, complexas, multiformes, imprevisíveis e dinâmicas. Densidade psicológica. Ruptura com a linearidade das personagens românticas (Herói x Vilão, Bem x Mal). O autor ausenta-se da narrativa, colocando-se como observador neutro. O "romance que se narra a si mesmo" (Flaubert).

Temas Contemporâneos. Crítica social à burguesia, ao clero, ao obscurantismo provinciano; ao capitalismo selvagem, ao preconceito racial, à monarquia. Romance social, psicológico e de tese. Sexo, adultério, degradação das personagens, assassinatos, triunfo do mal.

Preocupação formal. Clareza, concisão, precisão lexical, purismo, vernaculidade. Predomínio da denotação. A metáfora cede lugar à metonímia.

passeinaweb.com

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Literatura


Literatura? O que vem a ser?

O que é Literatura?


"A Literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e retransmitida através da língua para as formas, que são os gêneros, e com os quais ela toma corpo e nova realidade. Passa, então, a viver outra vida, autônoma, independente do autor e da experiência de realidade de onde proveio. Os fatos que lhe deram às vezes origem perderam a realidade primitiva e adquiriram outra, graças à imaginação do artista. São agora fatos de outra natureza, diferentes dos fatos naturais objetivados pela ciência ou pela história ou pelo social.

O artista literário cria ou recria um mundo de verdades que não são mensuráveis pelos mesmos padrões das verdades fatuais. Os fatos que manipula não têm comparação com os da realidade concreta. São as verdades humanas gerais, que traduzem antes um sentimento de experiência, uma compreensão e um julgamento das coisas humanas, um sentido da vida, e que fornecem um retrato vivo e insinuante da vida, o qual sugere antes que esgota o quadro.

A Literatura é, assim, a vida, parte da vida, não se admitindo possa haver conflito entre uma e outra. Através das obras literárias, tomamos contato com a vida, nas suas verdades eternas, comuns a todos os homens e lugares, porque são as verdades da mesma condição humana."

(Afrânio Coutinho)
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Alguns Conceitos sobre Literatura


"Arte literária é mimese (imitação); é a arte que imita pela palavra." (Aristóteles, filósofo grego, séc. IV a.C)

"A literatura é a expressão da sociedade, como a palavra é a expressão do homem." (Louis de Bonald, pensador e crítico do Romantismo francês, início do séc. XIX)

"O poeta sente as palavras ou frases como coisas e não como sinais, e a sua obra como um fim e não como um meio; como uma arma de combate." (Jean-Paul Sartre, filósofo francês, séc. XX)

"É com bons sentimentos que se faz literatura ruim." (André Gide, escritor francês, séc. XX)

"A poesia existe nos fatos" (Oswald de Andrade, poeta brasileiro, séc. XX)

Literatura Segundo o Dicionário


Literatura (Do lat. litteratura.] S.f. 1. Arte de compor ou escrever trabalhos artísticos em prosa ou verso. 2. O conjunto de trabalhos literários dum país ou duma época. 3. Os homens de letras: A literatura brasileira fez-se representar no colóquio de Lisboa. 4. A vida literária. S. A carreira das letras. 6. Conjunto de conhecimentos relativos às obras ou aos autores literários: estudante de literatura brasileira; manual de literatura portuguesa. 7. Qualquer dos usos estéticos da linguagem: literatura oral [p.v.] 8. Fam. Irrealidade, ficção: Sonhador, tudo quanto diz é literatura. 9. Bibliografia: Já é bem extensa a literatura da física nuclear. 10. Conjunto de escritores de propaganda de um produto industrial.

Fonte: www.literaturabrasileira.net

Esse vídeo é do youtube, narrado pelo Prof. Walace. Muito bom! Servirá como complementação.

Nesta aula veremos conceitos sobre arte e arte literária, suas características, elementos de análise, estética e construção, além de suas funções.

Bom estudo!




(Walace)